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arte e outros riscos

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Retrospectiva: 10 exposições de arte que marcaram o ano de 2017 no Nordeste

2017 já está nos seus suspiros finais, mas ainda vale a pena dar um último giro cultural pelo Nordeste e destacar algumas exposições de arte que marcaram o ano na região!

  Imagens de algumas das exposições que marcaram o ano de 2017 no Nordeste

Imagens de algumas das exposições que marcaram o ano de 2017 no Nordeste

Mas antes, algumas considerações:

Apesar de ter sido um ano difícil às artes visuais - que do segundo semestre pra cá se deparou com o falso-moralismo e a hipocrisia de alguns conservadores com agenda política a cumprir, não faltou nudez, temas referentes à sexualidade ou questionamentos políticos nas exposições por aqui. Embora a artista Simone Barreto tenha sido 'convidada' a retirar algumas de suas obras de uma exposição no Espaço Cultural Unifor, em Fortaleza, não tivemos acesso a outros episódios significativos de censura em museus, centros culturais e galerias de arte do Nordeste. Por acaso não há conservadores por aqui? Ou isso apenas reflete aqueles dados de 2009 do IBGE, que mostram que 96% dos brasileiros não frequentam museus e 93% nunca foram a uma exposição de arte? Será que no Nordeste essa porcentagem é ainda maior?

  Em protesto contra à censura a exposições de arte e apresentações cênicas em 2017, 115 pessoas ficaram nuas na Praça do Museu da República, em Brasília, para uma série fotográfica assinada pelo fotógrafo Kazuo Okubo. Censura nunca mais!

Em protesto contra à censura a exposições de arte e apresentações cênicas em 2017, 115 pessoas ficaram nuas na Praça do Museu da República, em Brasília, para uma série fotográfica assinada pelo fotógrafo Kazuo Okubo. Censura nunca mais!

Ainda somos uma região sem o hábito de frequentar equipamentos culturais e desconfio que isso tem relação direta com nossa carência em educação, mais até do que com a condição financeira ou classe social do nosso povo. Arrisco dizer, inclusive, que a classe média e a própria elite econômica não são grandes frequentadores de museus (locais, é claro) e exposições de arte (pelo menos quando não oferecem algum status social). E quando falo sobre nossa carência em educação, não estou falando de educação como mercadoria, mas sim de educação para a formação humana do indivíduo e da própria sociedade.

  O hábito de frequentar museus e outros espaços culturais deve fazer parte da formação humana de nossas crianças

O hábito de frequentar museus e outros espaços culturais deve fazer parte da formação humana de nossas crianças

  Uma criança visita a exposição  'Meu Caminho' , de Raimunda Fortes, na Sala Sesc de Exposições, em Sao Luís-MA

Uma criança visita a exposição 'Meu Caminho', de Raimunda Fortes, na Sala Sesc de Exposições, em Sao Luís-MA

Nossa cultura faz parte desse processo de formação. A arte transforma. Ela tem o poder de nos tirar do lugar comum e de oferecer um ponto de vista diferente (e muitas vezes crítico) daquilo que é aparentemente banal em nosso cotidiano. A arte é um risco ao status quo. É por isso que os conservadores se sentem ameaçados por ela e é por isso também que os investimentos em educação e cultura não são prioridade às nossas oligarquias políticas. E a previsão é de que os cortes sejam ainda maiores em 2018.

Mas apesar de todas essas dificuldades, as artes visuais continuaram resistindo e florescendo no Nordeste e, ao longo do ano, recebemos grandes exposições individuais de artistas consolidados, como Tomie Ohtake, Leonilson e Chico Albuquerque, além do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE) - pela primeira vez no Nordeste. Tivemos ainda exposições coletivas comemorativas, reunindo os principais nomes da produção artística local de alguns estados. Sem falar na itinerância de algumas exposições pelas capitais e também pelo interior da região, o que ainda é pouco comum e merece ser incentivado para promover a integração e o intercâmbio cultural entre os estados do Nordeste. Afinal, se estamos geograficamente tão próximos, por que ainda somos tão distantes?


Tomie Ohtake na Caixa Cultural

  A artista Tomie Ohtake viveu 101 anos e 60 deles foram dedicados à arte

A artista Tomie Ohtake viveu 101 anos e 60 deles foram dedicados à arte

  A obra da artista sempre seguiu o caminho do abstracionismo

A obra da artista sempre seguiu o caminho do abstracionismo

Tomie Ohtake nasceu no Japão, mas viveu a maior parte de sua vida no Brasil e é reconhecida como uma das principais artistas brasileiras do século XX. Mesmo começando sua carreira aos 40 anos, ela ainda produziu por mais 60 anos! Em 2017, a mostra retrospectiva ‘Cor e Corpo’, que homenageia a artista morta em 2015, permaneceu bastante tempo no Nordeste, circulando pelas unidades da Caixa Cultural de Salvador, Recife e Fortaleza. O público dessas três capitais teve a oportunidade de ver de perto a sutileza das cores, das formas e das curvas que marcam o abstracionismo presente nas gravuras, pinturas e esculturas da artista.


Lula Cardoso Ayres: Arte, Região e Tempo

  Obra de Lula Cardoso Ayres exposta na retrospectiva do artista

Obra de Lula Cardoso Ayres exposta na retrospectiva do artista

A Caixa Cultural do Recife ainda celebrou a trajetória de Lula Cardoso Ayres, com uma grande mostra retrospectiva. Ao todo foram 208 obras que revelam a percurso do artista pernambucano por diferentes técnicas, como pintura a óleo, acrílica sobre cartão, aquarela, têmpera, entre outras. Lula Cardoso Ayres, que nos deixou em 1987, foi um grande nome do modernismo brasileiro e uma das figuras mais icônicas das artes visuais em Pernambuco.

  Telas de Lula Cardoso Ayres evidenciam seu traço modernista

Telas de Lula Cardoso Ayres evidenciam seu traço modernista

lula cardoso ayres

Leonilson: arquivo e memória vivos

  A obra de Leonilson é revisitada em exposição retrospectiva

A obra de Leonilson é revisitada em exposição retrospectiva

Já o artista Leonilson teve sua maior exposição retrospectiva, que resultou ainda na publicação de seu catálogo raisonné – com reproduções de todas as obras conhecidas do artista. A mostra ficou cerca de 3 meses em cartaz no Espaço Cultural Unifor, em Fortaleza, e reuniu mais de 120 obras, algumas delas inéditas. Leonilson nasceu no Ceará, mas se mudou para São Paulo ainda na infância. Ele se destacou na arte contemporânea brasileira entre as décadas de 1980 e 1990, mas em 1993 teve sua vida interrompida, aos 36 anos, vítima do vírus HIV. Justíssima homenagem do Ceará ao seu conterrâneo.

  O artista seguiu o caminho da arte contemporânea em sua breve, mas profícua trajetória

O artista seguiu o caminho da arte contemporânea em sua breve, mas profícua trajetória

leonilson

O fotógrafo Chico Albuquerque, 100 anos

  Fotos do ensaio  'Mucuripe' , responsável por projetar nacionalmente a costa cearense

Fotos do ensaio 'Mucuripe', responsável por projetar nacionalmente a costa cearense

chico albuquerque

Outro cearense homenageado por lá foi o fotógrafo Chico Albuquerque, um dos pioneiros na fotografia publicitária brasileira e responsável por projetar nacionalmente a costa marítima do Ceará. Em 2017 ele completaria 100 anos e por isso foi tema da edição deste ano da Maloca Dragão, o maior festival de artes do estado. A exposição ocupou o Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC-CE) com mais de 400 fotografias.

Chico Albuquerque também ficou conhecido por ter acompanhado o cineasta americano Orson Welles ('Cidadão Kane') durante as gravações de um documentário sobre quatro jangadeiros que, a bordo de uma jangada, navegaram até o Rio de Janeiro a fim de reivindicar melhores condições de trabalho ao então presidente Getúlio Vargas. Infelizmente, o filme permaneceu inacabado, mas virou história.

  O cineasta americano Orson Welles (sentado) durante passagem pelo Ceará, em 1942. Fotografia: Chico Albuquerque

O cineasta americano Orson Welles (sentado) durante passagem pelo Ceará, em 1942. Fotografia: Chico Albuquerque


FILE SÃO LUÍS 2017

  Pela primeira vez, o FILE, maior festival de Arte e Tecnologia da América Latina chegou a uma cidade nordestina

Pela primeira vez, o FILE, maior festival de Arte e Tecnologia da América Latina chegou a uma cidade nordestina

E pela primeira vez uma cidade nordestina recebeu o Festival Internacional de Arte Eletrônica (FILE), o maior festival de Arte e Tecnologia da América Latina! A mostra, que anualmente acontece em São Paulo e circula geralmente entre as capitais do Sul e Sudeste, veio com tudo inaugurar o Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM), o mais novo espaço expositivo de São Luís (que, claro, merece nossa atenção nessa retrospectiva de 2017).

Durante três meses, o público do Maranhão pode interagir com obras de realidade virtual, instalações interativas, games, animações, experiências sensoriais, tendo acesso a trabalhos de mais de 42 artistas de diversos países, como Brasil, Alemanha, Austrália, Canadá, França, Eslováquia, Estados Unidos, Grécia, México, Portugal e Sérvia. De fato, uma mostra que merece o registro!

  Obra de realidade virtual convida o interator a entrar na obra de Van Gogh por meio de um óculos de realidade 3D

Obra de realidade virtual convida o interator a entrar na obra de Van Gogh por meio de um óculos de realidade 3D

  Sede do Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM), inaugurado em 2017

Sede do Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM), inaugurado em 2017


Mostra Sesc Amazônia das Artes pelo Maranhão e Piauí

  A exposição  'Alistamento' , de Éder Oliveira, integrou a 10ª edição da Mostra Sesc Amazônia das Artes

A exposição 'Alistamento', de Éder Oliveira, integrou a 10ª edição da Mostra Sesc Amazônia das Artes

Em 2017, o Maranhão ainda recebeu a exposição ‘Alistamento’, assim como o Piauí! Os dois estados integraram a 10ª edição da Mostra Sesc Amazônia das Artes, que também percorreu toda a região Norte e o Mato Grosso, promovendo atividades culturais nos estados da chamada Amazônia Legal. Eu só não entendi o porquê do Piauí ser incluído nesse projeto, uma vez que o Amazônia não é um bioma que ocorre no estado. Mas enfim... que bom que itinerâncias culturais como essa estão ocorrendo também no Norte do país!

Quem assina a exposição ‘Alistamento’ é o artista paraense Éder Oliveira, que apresentou ao público seu olhar artístico sobre o alistamento militar, em um processo de experimentação estética que aproximou fotografia, retrato, pintura e intervenção. Para muitos jovens, o alistamento militar representa uma alternativa para mudar de vida, principalmente para aqueles vindos de cidades pequenas.

  Um olhar artístico sobre o alistamento militar

Um olhar artístico sobre o alistamento militar

eder oliveira

Alexandre Filho - Pinturas e Gravura

  A Usina Cultural Energisa, em João Pessoa-PB, abriu a Galeria de Arte Alexandre Filho, seu novo espaço expositivo

A Usina Cultural Energisa, em João Pessoa-PB, abriu a Galeria de Arte Alexandre Filho, seu novo espaço expositivo

Outro espaço expositivo inaugurado recentemente é a Galeria de Arte Alexandre Filho, dentro da Usina Cultural Energisa, em João Pessoa. E nada melhor do que uma exposição do próprio homenageado para abrir a galeria! O paraibano Alexandre Filho é um verdadeiro patrimônio vivo da arte popular brasileira, reconhecido internacionalmente como um dos principais artistas naïfs do país.

A exposição retrospectiva de seus 50 anos de carreira (!) contou com trabalhos que se destacam pela leveza do traçado arredondado, pelas cores cheias de luz, pelo lirismo da relação entre a figura humana e a natureza e pela memória coletiva do povo nordestino, tão presente em suas telas. Algumas das obras, inclusive, eram inéditas. Na ocasião dessa exposição, o Pigmum também homenageou o artista lançando a seção Artista do Mês. Mais que merecido!

  Alexandre Filho é referência em arte  naïf  no país

Alexandre Filho é referência em arte naïf no país


Graciliano Arte e os 200 anos de Alagoas

  Páginas do livro Graciliano Arte dedicadas ao artista contemporâneo Delson Uchôa

Páginas do livro Graciliano Arte dedicadas ao artista contemporâneo Delson Uchôa

  Capa do livro Graciliano Arte, publicado em 2017

Capa do livro Graciliano Arte, publicado em 2017

Em Alagoas, os 200 anos de emancipação política (o território alagoano pertencia a Pernambuco até 16 de setembro de 1817) foram comemorados também com exposições coletivas que apresentaram um panorama visual da produção artística contemporânea no estado. Apesar de ter ocorrido o 'III Salão de Arte Contemporânea de Alagoas' e da Pinacoteca Universitária da Ufal ter cumprido o seu papel muito bem com a mostra ‘Horizontes’, é preciso enfatizar a exposição ‘Graciliano Arte’, que marcou o lançamento de um livro homônimo com o recorte dessa produção contemporânea em diferentes linguagens, como a música, a literatura, o audiovisual, as artes cênicas e, claro, as artes visuais.

Embora a publicação tenha causado certo desconforto devido às escolhas editoriais e à ausência de alguns nomes emblemáticos entre os artistas locais, é válido destacar esse livro como uma conquista das artes em Alagoas. Que venham os próximos!

Na exposição, que foi montada no Galpão 422, o público pode conferir trabalhos de artistas em plena atividade, como Pedro Lucena, Myrna Maracajá, Heway Verçosa, Suel Cordeiro, Celso Brandão, Francisco Oiticica, Renata Voss e Ricardo Lêdo.


A itinerância de Guto Holanda

  Guto Holanda e suas obras

Guto Holanda e suas obras

E quem também expôs em Maceió foi o paulista Guto Holanda. Radicado em João Pessoa, o artista conseguiu circular com seus trabalhos em pelo menos três estados do Nordeste este ano! Primeiro ele dividiu o espaço da Galeria de Arte Archidy Picado, em João Pessoa, com o também artista Américo Filho (Meiacor); depois, a Pinacoteca da Ufal recebeu a sua exposição individual ‘Nunca Serei Cinza’; e em novembro, foi a vez da Galeria de Arte do IFRN Cidade Alta, em Natal, receber a mesma exposição.

Mas por que eu estou batendo tanto nesta tecla? Porque seria incrível que as exposições dos nossos artistas tivessem trânsito facilitado não apenas nas capitais da região, mas também pelo interior dos estados. Precisamos dar a oportunidade para que o Nordeste conheça e valorize os seus próprios artistas. Intercâmbio cultural é fundamental!

  Mostra  'Cor de Dentro'  ficou em cartaz na Galeria de Arte Archidy Picado, em João Pessoa-PB, no primeiro semestre de 2017

Mostra 'Cor de Dentro' ficou em cartaz na Galeria de Arte Archidy Picado, em João Pessoa-PB, no primeiro semestre de 2017


II Salão Dorian Gray de Artes Visuais em Mossoró-RN

  O cangaço foi o tema do II Salão Dorian Gray de Artes Visuais

O cangaço foi o tema do II Salão Dorian Gray de Artes Visuais

Falando em interiorização, não podemos deixar de fora o 'II Salão Dorian Gray de Artes Visuais', que levou para Mossoró-RN – em pleno período junino - mais de 300 obras, entre desenhos, pinturas, esculturas, gravuras, fotografias, imagens em movimento e performances. Cerca de 150 artistas participaram da mostra, que teve o cangaço como tema. O salão integrou as comemorações da cidade pelos 90 anos de resistência do povo mossoroense ao ataque do bando de Lampião. De fato, essa grande exposição no interior potiguar marcou o ano de 2017 para as artes visuais do Rio Grande do Norte.

E a notícia que rola por aí é de que Mossoró vai ganhar a sua própria Pinacoteca! Espero que esse projeto saia mesmo do papel, né governador?!

  A mostra levou mais de 300 obras para Mossoró-RN

A mostra levou mais de 300 obras para Mossoró-RN

II Salão Dorian Gray de Artes Visuais

É claro que muita coisa ficou de fora nessa retrospectiva 2017. Não foi nada fácil eleger apenas 10 exposições em meio a tanta coisa que rolou nos 9 estados que compõem o Nordeste. Mas acredito que consegui fazer um apanhado justo do que eu consegui acompanhar ao longo do ano por aqui. Espero que o Pigmum tenha ajudado vocês a se conectar com a cena artística visual do Nordeste. Espero ainda que, em 2018, o Pigmum possa acompanhar ainda mais de perto essa cena tão diversa e que se torne, de certa forma, um termômetro das artes visuais na região.

Agora pegue o champagne e vamos brindar!

Feliz ano novo!

Precisamos dizer NÃO à censura e reabrir a exposição 'Queermuseu' no Santander Cultural!

Primeiro, quero deixar todo o meu apoio e solidariedade aos artistas e ao Doutor em História da Arte, Gaudêncio Fidelis, curador da mostra ‘Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira’.

Nesta segunda-feira, 11 de setembro, esse foi um dos principais assuntos a repercutir na internet: a exposição, que dava visibilidade à diversidade sexual e questionava valores culturais, sociais e religiosos que historicamente marginalizaram e ainda marginalizam a comunidade LGBT+, foi cancelada pelo Santander Cultural de Porto Alegre, após a reação daqueles que eu estou chamando aqui de ‘os conservadores’.

  A exposição  'Queermuseu'  discute diversidade sexual e reúne obras de vários artistas e épocas diferentes

A exposição 'Queermuseu' discute diversidade sexual e reúne obras de vários artistas e épocas diferentes

Eu lamento a decisão do Santander Cultural em ceder à censura e à intimidação desonesta desses conservadores e lamento ainda mais que essa prática, tão comum nos tempos da Ditadura Militar esteja voltando. Esse não é o primeiro caso de censura que vimos nos últimos anos e provavelmente não será o último. E o mais chocante é que todas essas manifestações artísticas, performáticas ou teatrais que foram censuradas e ganharam repercussão na internet tinham um teor político muito forte e isso diz muito sobre o nosso atual momento histórico. Inclusive algumas das obras que estão sendo alvo de repúdio são dos anos 1990 e já circularam em diversas outras exposições e espaços públicos.

 ‘A’, Not ‘I’  (2016), de Cibelle Cavalli Bastos, uma das obras da exposição  ‘Queermuseu’ 

‘A’, Not ‘I’ (2016), de Cibelle Cavalli Bastos, uma das obras da exposição ‘Queermuseu’ 

Eu não tenho dúvidas de que a reação contra essa exposição é só mais um reflexo dos nossos tempos sombrios e só mostra o quanto a homofobia e os tabus sexuais ainda estão latentes na nossa sociedade hipócrita e falso-moralista. A mesma sociedade que colocou os termos 'ônibus' e 'gozando no ombro' como duas das palavras-chave mais buscadas em um site pornô, poucos dias após a repercussão daquele caso de abuso sexual dentro de um ônibus em São Paulo  (veja o link).

  As tags  'ônibus'  e  'gozando no ombro'  foram algumas das palavras-chave mais buscadas no site de conteúdo pornográfico X-Videos, logo após o caso de abuso sexual dentro de um ônibus em São Paulo. Isso revela muito sobre a nossa sociedade

As tags 'ônibus' e 'gozando no ombro' foram algumas das palavras-chave mais buscadas no site de conteúdo pornográfico X-Videos, logo após o caso de abuso sexual dentro de um ônibus em São Paulo. Isso revela muito sobre a nossa sociedade

É por essas e outras que precisamos sim continuar discutindo gênero e diversidade sexual em todas as instituições sociais (na arte, na família, na igreja, na escola - SIM), porque essa diversidade faz parte da nossa realidade empírica e escondê-la para debaixo do tapete só vai trazer sofrimento e ignorância para todo mundo. Inclusive para as crianças. Precisamos SIM falar sobre isso com as crianças e talvez elas entendam até melhor do que você.

 'Cena de interior II'  (1994), da artista Adriana Varejão, uma das obras mais comentadas da exposição e que levanta questionamentos sobre práticas sexuais recorrentes no interior do Brasil, segundo a artista

'Cena de interior II' (1994), da artista Adriana Varejão, uma das obras mais comentadas da exposição e que levanta questionamentos sobre práticas sexuais recorrentes no interior do Brasil, segundo a artista

A arte pode ser um meio de expressão capaz de nos tirar do lugar-comum e de nos levar além dos discursos rasos e literais que rondam o nosso cotidiano. Uma obra de arte tem o potencial de expressar muito mais do que parece: desde questionamentos estéticos, conflitos pessoais, crítica social, posicionamento político, entre tantas outras possibilidades. Mas é preciso saber ler as entrelinhas. E não é isso que estamos vendo na repercussão dessa exposição.

Os autores dos vídeos e dos comentários que estão circulando na internet não fazem a mínima questão de tentar entender a proposta da exposição e as críticas e questionamentos que estão sendo levantados nela.

Para além das poéticas artísticas, essa é também uma exposição política (SIM!) - como todo posicionamento que a gente assume na vida! Afinal, a reação conservadora também é política. E limitada ao ataque raso, agressivo e distante de qualquer contexto que tenha sido proposto na exposição.

Essa galera conservadora consegue ser extremamente bidimensional, enxergando apenas nudez, "pornografia" e o que eles consideram vulgar e obsceno em trabalhos artísticos que estão se propondo a explorar questões com raízes muito mais profundas do que isso.

Você tem que ser muito criativo pra conseguir ver pedofilia em um trabalho como o da artista Bia Leite, que se inspirou nas fotos do site Criança Viada para celebrar os traços não heteronormativos que as crianças LGBT+ expressam todos os dias e que são duramente reprimidos todos os dias, muitas vezes com xingamentos e violência física. E eu sei do que eu tô falando. Você ao menos sabe o que é pedofilia? Porque se você enxergou pedofilia nesse trabalho, busque se informar melhor ou vá se tratar! Você está com problemas!

 'Criança Viada Travesti da Lambada'  e  'Criança Viada Deusa das Águas'  (2013), de Bia Leite. Acusada de pedofilia. Pedofilia onde?

'Criança Viada Travesti da Lambada' e 'Criança Viada Deusa das Águas' (2013), de Bia Leite. Acusada de pedofilia. Pedofilia onde?

Na verdade, essa tal 'obscenidade' ou nudez que aparece nos trabalhos da exposição seja o que há de menos importante nessas obras. Talvez a exposição esteja muito mais interessada em discutir o preconceito e a hipocrisia dos falso-moralistas.

Diante de toda essa reação, eu só consigo pensar que esses conservadores não se sentem confortáveis em se deparar com seus próprios preconceitos, muito menos em uma galeria de arte, que ainda tem sobre si essa áurea quase inatingível de genialidade artística. E como eles não têm como contra-argumentar - uma vez que eles não conseguem ultrapassar a zona superficial que só enxerga literalmente nudez e pornografia, não resta outra opção a eles, a não ser os ataques agressivos e o apelo à censura.

Mas não podemos deixar que a censura se instale novamente em nosso país e nem permitir que os conservadores continuem ditando regras equivocadas, baseadas em seus próprios umbigos. Chega de ignorância! Chega de homofobia!   

E como já cantou Chico Buarque, apesar de você, amanhã há de ser outro dia e você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia.

Assine o abaixo-assinado que pede a reabertura da exposição ‘Queermuseu’! Precisamos continuar falando sobre isso e a exposição só tem a contribuir!

Resultado do sorteio do livro sobre a arte de Salvador Dalí!

E como prometido, neste domingo, 10 de setembro, rolou o sorteio do livro sobre a arte de Salvador Dalí, em comemoração às 1.000 curtidas na página do Pigmum no Facebook. O sorteio foi feito ao vivo, às 10h da manhã e o vídeo está disponível logo abaixo!

E a ganhadora é lá da cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul! Parabéns, Hilda! Espero que você aproveite bastante o livro! Se puder, manda um feedback pra gente! Não esqueça que você tem 5 dias para enviar um endereço para a entrega do livro. Fique de olho no seu e-mail, pois uma mensagem foi encaminhada. 

Resultado Sorteio Livro Dalí

Obrigado a todo mundo que participou da promoção. Em breve vai haver outros sorteios porque eu adorei brincar disso! Se tiver alguma editora de livros, livraria ou empresa do segmento de artes/cultura a fim de fechar uma parceria, é só mandar sua proposta para pigmumblog@gmail.com ou entrar em contato pelo Instagram, Facebook ou YouTube.

Até mais e bom domingo!

Para comemorar as 1.000 curtidas no Facebook, o Pigmum está sorteando um livro sobre a arte de Salvador Dalí! Participe!

Nesta semana, o Pigmum alcançou 1.000 curtidas aqui no Facebook e eu só tenho a agradecer! Pra comemorar, vai rolar o sorteio desse livro maravilhoso do Salvador Dalí! Dá uma olhada nesse vídeo:

São 160 páginas, em uma edição caprichada da coleção Grandes Mestres, da editora Abril, reunindo imagens das principais obras do artista.

PARA PARTICIPAR, BASTA SEGUIR ESSAS REGRINHAS:

1. Curta a página Pigmum no Facebook;
2. Marque na postagem do Facebook 3 amigos que também são apaixonados por arte como você!;
3. Clique em 'Quero Participar', acessando esse link aqui.
4. Compartilhe a postagem do sorteio publicamente no seu Facebook

Para validar o prêmio, é preciso seguir todas as regrinhas, OK?

Caso o nome vencedor tenha deixado de seguir alguma delas, o livro será sorteado novamente.

O nome vencedor tem o prazo de 5 dias para enviar um endereço para entrega do livro. Passado esse prazo, um novo nome será sorteado.

  Essa é a imagem do post que vocês precisam compartilhar e marcar 3 amigos lá no Facebook!

Essa é a imagem do post que vocês precisam compartilhar e marcar 3 amigos lá no Facebook!

O sorteio será no domingo, dia 10 de setembro de 2017. O nome vencedor será divulgado no Facebook (http://bit.ly/2eSP31v), no Instagram (http://bit.ly/2dNbqTS) e aqui no blog http://www.pigmum.com/

Promoção válida somente para residentes no Brasil.

Participe, boa sorte e obrigado por seguir o Pigmum! ❤❤❤❤❤

5 canais sobre arte que você precisa seguir no YouTube

Gente, Netflix é bom, mas vocês conhecem o canal Pigmum no YouTube? Pois já podem se inscrever! Porque hoje em dia todo mundo é youtuber, né? E até o Pigmum recentemente voltou a postar vídeos em seu próprio canal. Mas não é só a gente que fala sobre artes visuais, exposições e museus. Tem uma galera que já tá na estrada há um tempo e que vale a pena seguir também. Por isso, se você curte arte, não pode deixar de seguir esses 5 canais:

1 – Canal-Arte

Já são mais de 300 vídeos postados ao longo dos últimos 3 anos, sempre trazendo depoimentos de artistas, curadores e especialistas em artes visuais. O Canal-Arte também está sempre fazendo a cobertura de exposições, divulgando a produção artística nacional, estimulando a cadeia produtiva e colaborando com a memória recente das artes visuais. O grande trunfo do canal está em trazer os artistas e os curadores para falar sobre as exposições.


2 – Canal Conhecendo Museus

Aqui o lance é apresentar ao público os principais museus do Brasil! São documentários de 26 minutos de duração, divididos em dois blocos e exibidos na grade de programação da TV Brasil e da TV Escola. O projeto já está na 4ª temporada e é claro que todos os vídeos estão disponíveis no YouTube. É fundamental que a gente se inscreva e divulgue esse canal lindo, porque nós precisamos conhecer e ocupar esses espaços que guardam a nossa memória: os museus. Sem dúvidas uma grande inspiração para o Canal Pigmum.


3 – Canal Fruto de Arte

A Fruto de Arte é uma loja de materiais artísticos, sediada em São Paulo-SP, e com um canal bastante ativo no YouTube. O que mais chama a atenção são as dicas refinadas e precisas de Caetano Ferrari, um estudioso sobre materiais artísticos que está em plena atividade desde 1954 e que sempre aparece nos vídeos discutindo os materiais de trabalho do artista. O conhecimento dele a respeito da fabricação e manuseio dos materiais é impressionante! Pra quem curte tutoriais, a Fruto de Arte está acertando em cheio!


4 – Canal Vivieuvi

A Vivi Villanova é uma fofa, tá sempre falando sobre exposições de arte, visitando museus e dando dicas de livros e filmes, sempre sobre artes visuais. O canal tá no ar desde 2015, sempre com vídeos novos às segundas e quintas-feiras. Já são mais de 100 vídeos e o diferencial está no tom opinativo e no formato vlog das postagens. A Vivi fala de arte de uma maneira muito descontraída, tornando o canal super leve e agradável de acompanhar.


5 – Canal Bia na Arte

A Bia começou há pouco tempo seu canal, mas a proposta dela é postar às quintas-feiras, falando sempre sobre fotografia, artes e design. Ela também está investindo no formato vlog, inclusive brincando com os erros de gravação, o que também deixa os vídeos bem descontraídos. Sem falar na meiguice dessa garota, né? Dá o play aí pra conferir a visita dela na Pinacoteca do Estado de São Paulo.


BÔNUS: Canal Pigmum

É claro que eu não ia deixar de indicar o Canal Pigmum, né? A proposta do canal é apresentar museus, galerias e espaços para exposições de arte, principalmente no Nordeste brasileiro. E vez ou outra vai rolar ainda entrevistas com artistas e pesquisadores, além de comentários meus sobre temas específicos do mundo das artes. O canal passou por um hiato nos últimos meses, mas já está de volta e a ideia é que os vídeos sejam semanais. Por isso, pra não perder nenhum vídeo, inscreva-se no canal e dê a sua opinião!

5 filmes sobre Van Gogh para comemorar o aniversário do artista

  Van Gogh pintou inúmeros autorretratos, inclusive após perder sua orelha

Van Gogh pintou inúmeros autorretratos, inclusive após perder sua orelha

Há exatamente 164 anos, no dia 30 de março de 1853, nascia Vincent van Gogh, um gênio das artes atormentado pela sua própria mente. Sua vida, repleta de fatos curiosíssimos, já rendeu material suficiente para as mais diversas narrativas. Afinal, que outro artista que você conhece tem um temperamento tão instável a ponto de cortar a própria orelha após discutir com seu companheiro de pintura – no caso, o também artista Paul Gauguin?

Conta-se ainda que durante toda a sua vida, Van Gogh vendeu apenas um único quadro. Isso porque naquela época as estéticas inovadoras que antecederam o modernismo, como a arte impressionista, ainda eram marginais e ‘brigavam’ com as belas artes por um lugar ao sol. Mas definitivamente Van Gogh não conseguia se encaixar em lugar nenhum, já que nem chegou a ser considerado um impressionista. Van Gogh ficou ali no meio, no espaço indefinido entre o pós-impressionista e o pré-modernista. E essa sensação de não-pertencimento foi uma constante em sua trajetória.

Van Gogh foi uma criança solitária e assim continuou durante a vida adulta. Muito religioso, queria ser pastor e chegou a se tornar missionário na Bélgica, mas decidiu ocupar-se definitivamente da arte já perto dos 30 anos de idade, com o apoio financeiro de seu irmão mais novo, o marchand de arte Theo van Gogh.

  'A Noite Estrelada' (1889) é uma de suas pinturas mais famosas

'A Noite Estrelada' (1889) é uma de suas pinturas mais famosas

Após um tempo em Paris, onde entrou em contato com os impressionistas, Van Gogh estabeleceu-se em Arles, no sul da França, e lá foi influenciado pela particular incidência da luz solar na região, que dava um brilho especial às manhãs.

 'Arles Vista do Campo de Trigo'  (1889). O amarelo é uma cor recorrente na obra de Van Gogh

'Arles Vista do Campo de Trigo' (1889). O amarelo é uma cor recorrente na obra de Van Gogh

 'Les Alyscamps' , de 1888

'Les Alyscamps', de 1888

 'Campo de Trigo com Ciprestes'  (1889) é outra de suas célebres pinturas

'Campo de Trigo com Ciprestes' (1889) é outra de suas célebres pinturas

A obra de Van Gogh permaneceu praticamente intocada até a sua morte, em 1890. Mas aos poucos foi descoberta e se tornou referência para as gerações de artistas que vieram depois dele. O historiador de arte E. H. Gombrich chega a definir Van Gogh como um dos 3 artistas responsáveis pela criação das soluções que permitiram a revolução da arte moderna no século XX, juntamente com Cézanne e Gauguin.

 'Quarto em Arles'  (1888). Até os motivos mais corriqueiros do cotidiano serviam de motivo para Van Gogh pintar

'Quarto em Arles' (1888). Até os motivos mais corriqueiros do cotidiano serviam de motivo para Van Gogh pintar

Por tudo isso, não é pra menos que várias produções cinematográficas já se debruçaram sobre essa rica biografia. Para celebrar a data de nascimento desse artista fundamental, o Pigmum selecionou 5 filmes de diferentes épocas. Basta escolher um (ou todos) e prestar a sua homenagem. Ele merece!


1 - 'Van Gogh' (1948), direção: Alain Resnais

O primeiro é um curta francês de 1948, considerado o primeiro registro cinematográfico feito sobre Van Gogh. Foi um desafio e tanto, já que o curta é em preto e branco e as cores são características cruciais na obra de Van Gogh. Como traduzir para o cinema monocromático uma obra que é cheia de cor? O jeito foi se arriscar experimentando a linguagem do cinema, o que acabou garantindo a Alain Resnais, diretor do filme, o Oscar de Melhor Curta-Metragem.


2 - 'Sede de Viver' (1956), direção: Vincent Minnelli

Já em 1956 o livro ‘Sede de Viver’, do romancista americano Irving Stone, ganhou uma adaptação cinematográfica de mesmo nome, com Kirk Douglas no papel de Van Gogh. O ator inclusive chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Ator por esse papel, mas não ganhou. Dessa lista, talvez seja o filme mais clássico sobre o artista. A primeira grande produção sobre ele, totalmente em cores, aliás.


3 - 'Vincent & Theo' (1990), direção: Robert Altman

Nos anos 1990 o interesse pelo artista parece ter crescido e várias produções surgiram desde então. Em 1990, ano do centenário de morte do artista, foi lançado o filme ‘Vincent & Theo’, de Robert Altman, focado na relação de Van Gogh com seu irmão mais novo, Theo. O filme vai além da narrativa biográfica pura e simples, concentrando-se em um aspecto específico da vida de Van Gogh.


4 - 'Van Gogh' (1991), direção: Maurice Pialat

O mesmo acontece em ‘Van Gogh’ (1991), de Maurice Pialat, que se concentrou nos últimos dias do artista, internado voluntariamente em um asilo em Saint-Remy, na França. Dessa vez, temos acesso à relação do artista com seu médico, Dr. Garchet, imortalizado em uma de suas pinturas. Nesse filme o gênio intempestivo dá lugar ao homem comum e de psiqué frágil, aproximando Van Gogh da realidade.


5 - 'Van Gogh: Pintando Com Palavras' (2010), direção: Andrew Hutton

E o último filme da lista é uma espécie de doc-drama, produzido pela BBC e com roteiro baseado inteiramente nas cartas trocadas entre Van Gogh, seu irmão Theo, entre outros familiares. Grande parte do que se sabe sobre o temperamento e as frustrações do artista só estão acessíveis por conta dessas cartas, que contam muito sobre sua maneira de enxergar o mundo. Talvez seja uma das produções mais recentes sobre o artista, se levarmos em consideração também os gêneros televisivos documentais e ficcionais.


BÔNUS: 'Loving Vincent' (2017?), direção: Dorota Kobiela

E talvez o grande filme sobre o artista ainda esteja por vir! Em 2017 provavelmente será lançado ‘Loving Vincent’, a primeira animação feita inteiramente utilizando a técnica da pintura a óleo. Os próprios quadros de Van Gogh ganham vida para falar sobre a vida e a misteriosa morte do artista. Interessante, né? Então dá uma olhada no trailer, só pra ficar morrendo de ansiedade:

Já ouviu falar no #MUSEUdeMEMES? Relembre 10 memes clássicos que você vai encontrar por lá!

Quem acompanha o blog sabe que exposições e museus são assuntos recorrentes por aqui, né? Mas hoje a gente vai fazer uma visitinha a um museu diferente, totalmente dedicado aos memes – aquelas imagens, vídeos ou expressões que viralizam na internet, levando bom humor ou até mesmo uma visão crítica sobre determinado assunto.

  O #MUSEUdeMEMES é uma iniciativa pioneira no Brasil

O #MUSEUdeMEMES é uma iniciativa pioneira no Brasil

O meme já faz parte da cultura digital e é um dos fenômenos que faz melhor uso das potencialidades e características próprias da internet. Ora, se o meme já é uma constante em nossas experiências virtuais e, consequentemente, no nosso dia a dia, nada mais justo do que estudá-lo.

  Os memes geralmente são relacionados ao humor ou como os brasileiros chamam: zueira!

Os memes geralmente são relacionados ao humor ou como os brasileiros chamam: zueira!

E foi pensando nisso que pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) lançaram o #MUSEUdeMEMES, um museu virtual que tem o objetivo de construir um acervo de referência para outros pesquisadores interessados no universo dos memes, do humor e das práticas sociais que se desenvolvem em comunidades virtuais.

O visitante provavelmente dará boas risadas ao se deparar com memes que fizeram história anos atrás e que parecem esquecidos. Esse é mais um motivo que justifica a relevância do #MUSEUdeMEMES. Afinal, em um ambiente onde tudo é efêmero – a internet –, como arquivar e resgatar peças imateriais ou simbólicas aparentemente descartáveis, mas que dizem muito sobre nosso comportamento nas redes sociais digitais?

No acervo, vamos encontrar uma breve explicação sobre o contexto que deu origem a cada meme, os diversos formatos de difusão, a repercussão nas redes sociais digitais, além de outras releituras e montagens surgidas a partir do meme original.

Também é possível encontrar artigos, ensaios, resenhas e capítulos de livros de pesquisadores nacionais e internacionais do campo de estudos de memes e comunidades virtuais. Ou seja, o site é uma ótima referência pra quem se interessa pelo tema.

  Os gringos acabaram descobrindo a personagem Nazaré, da novela brasileira  'Senhora do Destino'  (2004) e a 'Confused Lady' ou 'Math Lady' acabou se tornando um viral recente nos Estados Unidos

Os gringos acabaram descobrindo a personagem Nazaré, da novela brasileira 'Senhora do Destino' (2004) e a 'Confused Lady' ou 'Math Lady' acabou se tornando um viral recente nos Estados Unidos

Mas chega de papo! O Pigmum selecionou 10 memes que já são verdadeiros clássicos da internet e que podem ser encontrados no #MUSEUdeMEMES:

1 - Ecce homo restaurado

Sem dúvidas esse é o meme mais famoso do mundo das artes visuais. Inclusive reacendeu várias discussões pertinentes à teoria da arte ou história da arte, etc. O fato é que essa imagem ~meio~ acidental de Jesus Cristo já se tornou icônica e representativa dessa década!

Tudo aconteceu em 2012, na Espanha, quando dona Cecilia Giménez, uma senhora de 81 anos, decidiu restaurar por conta própria o afresco 'Ecce Homo', assinado pelo pintor Elías García Martínez no século XIX. Mas dona Cecilia acabou desfigurando o rosto de Jesus Cristo, criando traços completamente diferentes da obra original. O resultado disso? Você confere no #MUSEUdeMEMES, mas olha aí como ficou: 

  A versão de dona Cecilia Giménez para  'Ecce Homo'  acabou se tornando mais famosa que a obra original

A versão de dona Cecilia Giménez para 'Ecce Homo' acabou se tornando mais famosa que a obra original

2 - Tapa na pantera

Um dos primeiros virais da internet no Brasil. Em 2006, o vídeo 'Tapa na Pantera', obra ficcional dirigida por Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, foi replicado inúmeras vezes no Orkut e MSN. No vídeo, uma senhora - interpretada pela atriz Maria Alice Vergueiro - , dá um depoimento super bem-humorado sobre sua experiência com a maconha. Esse vídeo é lá dos primórdios das redes sociais digitais. Confira a história completa lá no #MUSEUdeMEMES.

3 - Keep Calm

A história desse meme, que explodiu em 2008 e demorou alguns anos pra sumir da internet, é bem mais complexa. Nasceu no Reino Unido como um cartaz ainda no início da Segunda Guerra Mundial, com a frase 'Keep Calm and Carry On' e foi redescoberto no ano 2000. Depois migrou para a internet e desde 2008 a frase passou a ser modificada inúmeras vezes, tornando-se um fenômeno viral. Foi parar até na música 'Beijinho no Ombro', da Valesca Popozuda, lembra? Os desdobramentos desse meme você confere no #MUSEUdeMEMES.  

  Certeza que você já deve ter feito a sua própria versão dessa frase, né?

Certeza que você já deve ter feito a sua própria versão dessa frase, né?

4 - Leave Britney Alone

Em 2007 todo mundo caiu em cima da cantora Britney Spears, que tava passando por uma fase conturbada na carreira e na vida pessoal. O ápice disso foi a desastrosa apresentação da música 'Gimme More', no palco do Video Music Awards, da MTV. Inconformado com as críticas à cantora, o vlogueiro Chris Crocker acabou aos prantos, fazendo um apelo diante da câmera, pedindo para que a imprensa deixasse Britney em paz. Daí surgiu o 'Leave Britney alone', que repercutiu imediatamente, sendo compartilhado no mundo todo. Chris, de certa forma, soube aproveitar a fama e tá bem diferente hoje em dia. Lá no #MUSEUdeMEMES tem a história completa.

5 - Para Nossa Alegria

Em 2012, uma gravação caseira dos irmãos Jefferson e Suellen para a música gospel 'Galhos Secos', da banda Êxodos, caiu na graça do público brasileiro. Isso porque, durante a execução da música, Jefferson solta um grito no verso 'Para nossa alegria', fazendo a irmã ter uma crise de riso (e nós também!).  O vídeo, claro, viralizou e os irmãos chegaram até a lançar um CD. Conheça a repercussão completa desse meme lá no #MUSEUdeMEMES.

6 - O forninho caiu

A Geovanna tava de boas cantando o funk 'Toda Gostosa', do MC Leozinho, quando de repente 'o forninho caiu' e ela acabou se tornando um dos virais mais famosos do Brasil em 2014. A garotinha acabou segurando muitos forninhos nas diversas montagens que circularam nas redes sociais, como você pode ver lá no #MUSEUdeMEMES.

7 - Choque de Monstro

Esse aqui é um verdadeiro criadouro de memes! Em 2012, a TV Diário, de Fortaleza-CE, resolveu criar o primeiro reality show brasileiro estrelado por drag queens. Os vídeos e inúmeros bordões acabaram repercutindo em todo o país, principalmente entre a comunidade LGBT, que adotou frases como 'Bicha, a senhora é destruidora mesmo' e 'Vai ser choque de monstro'. Até hoje Rochelly Santrelly e Sangalo são referências e seus bordões são repetidos até hoje. Mas tem muito mais história lá no #MUSEUdeMEMES. O vídeo mais famoso é esse aí:

8 - Como Você é Burro!

Mais um meme que veio lá das antigas. Em 1978, o cantor Caetano Veloso tava com a língua afiadíssima no programa de TV 'Vox Populi', exibido pela TV Cultura. Em 2012 o programa acabou sendo reprisado e foi parar na internet, com o trechinho que acabou viralizando e sendo utilizado até hoje nas mais diversas situações. Volta e meia o Caetano aparece na sua timeline dizendo 'como você é burro'. Veja mais lá no #MUSEUdeMEMES.

9 - Se isso é estar na pior...

Mais um clássico LGBT. A diva trans Luisa Marilac resolveu fazer algo de diferente em 2010 e acabou tomando os #bonsdrink mais famosos da internet.  No vídeo, Luisa questiona os boatos de que ela estaria na pior, após mergulhar na piscina de sua casa na Espanha. O vídeo viralizou, virou bordão e foi parodiado inúmeras vezes no Brasil. Depois do sucesso, Luisa voltou ao Brasil e tem construído uma história linda de superação por aqui. Veja mais no #MUSEUdeMEMES.

10 - Senhora?

O meme mais recente dessa listinha, volta e meia ainda aparece nas nossas timelines. Em 2015, durante uma reportagem para a TV Anhanguera, a senhora Edinair Maria dos Santos Moraes resolveu fugir da repórter ao ser perguntada sobre as acusações de ela ser uma funcionária fantasma da Assembleia Legislativa de Goiás.  A jornalista resolve então correr atrás da entrevistada, questionando o porquê de ela estar fugindo. É hilário! Confira a repercussão no #MUSEUdeMEMES.

5 imagens pintadas com urgência juvenil

Em algum momento, lá pelos meus 13 anos, decidi que começaria a pintar. Fui ao Centro de Maceió depois da escola e comprei algumas bisnagas de tinta, sem nenhuma orientação, nem mesmo de Magda, minha professora de Artes do Colégio de São José.

A compra foi feita por impulso, praticamente obedecendo a um chamado. Minha relação com a arte sempre foi meio religiosa: devoção cega, por vezes banhada em culpa, remorso e arrependimento. Mas que no fim, inexplicavelmente, sempre satisfaz.

  1.  Labirinto  (2001, óleo sobre papel)

1. Labirinto (2001, óleo sobre papel)

Na verdade, não contei a ninguém que faria aquilo, nem mesmo perguntei à professora sobre o que deveria comprar. Não busquei informação. Não havia o Google. E não lembrei da aula sobre as cores primárias.

  2.  Gema do Espaço  (2001, óleo sobre papel)

2. Gema do Espaço (2001, óleo sobre papel)

Na loja, aquele sentimento de ‘quero pintar, mas não sei o que devo levar’. Acabei levando o azul, o amarelo, o verde, o laranja e o roxo. O roxo! O que eu faria com o roxo, gente? Não comprei nem vermelho e nem preto! Tinta a óleo. Gato Preto. A moça do balcão falou que era o tipo certo para pintar quadros. Eu não sabia a diferença.

  3.  Caminho de Tijolos Coloridos  (2001, óleo sobre papel)

3. Caminho de Tijolos Coloridos (2001, óleo sobre papel)

Próximo dali, numa papelaria, comprei um bloco de papel A3 e duas telas pequenas. Transformei a área livre do meu quarto em ateliê e estraguei as telas. Eu não sabia pintar! E foi frustrante descobrir que eu não conseguia dar forma às imagens que vinham à minha cabeça. O pincel não me obedecia. Provavelmente não estava usando os pincéis adequados.

  4.  Lombrigas  (2001, óleo sobre papel)

4. Lombrigas (2001, óleo sobre papel)

Quando finalmente faltou paciência para continuar tentando o caminho figurativo, chutei o balde e investi no aleatório, no abstrato, no intuitivo. Eis o resultado: 4 imagens pintadas com urgência juvenil, a óleo sobre papel, e uma quinta imagem seguindo a mesma linha, quando tentei voltar a pintar poucos anos depois.

*Os títulos das pinturas são de 2001/2005.
  5.  Transbordância  (2005, óleo sobre papel)

5. Transbordância (2005, óleo sobre papel)

Documentário resgata a história do Halloween do Gringo’s, que já é considerado o maior Halloween de rua do Brasil

Olha que legal, gente. A jornalista Lara Paiva produziu um documentário sobre a Praça do Gringo’s e seu famoso Halloween, que há quase 10 anos reúne espontaneamente milhares de pessoas, sempre muito bem fantasiadas. Lá Pro Gringo’s faz parte de uma série de 4 documentários que fala sobre espaços urbanos de Natal (RN) e foi desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da jornalista.

A praça, na verdade, se chama Praça Ecológica de Ponta Negra, mas todo mundo chama de Praça do Gringo’s, porque em seu entorno está localizado o antigo Gringo’s Bar (hoje, Wesley’s Bar). E foi justamente lá que começou essa tradição de Halloween na praça.

Em 2008, Wilson Couto, que veio dos Estados Unidos só para abrir o Gringo’s Bar, organizou a primeira edição da festa, que era um evento privado, mas que ocorria na rua, em frente ao bar. Em poucos anos, a festa cresceu e acabou ganhando vida própria, tornando-se independente.

  Halloween do Gringo's 2015. Fotografia: Murilo Passos/Indica Natal

Halloween do Gringo's 2015. Fotografia: Murilo Passos/Indica Natal

Hoje, existe uma polêmica sobre quem organiza o evento. Em 2015, foram duas festas. O Wesley’s Bar (herdeiro direto do Gringo’s Bar) organizou o Halloween do Wesley’s no dia 31 de outubro, mas foi na noite seguinte que a praça foi novamente ocupada por milhares de pessoas, para curtir o que já está sendo considerado o maior Halloween de rua do Brasil.

  Fotos extraídas do site Apartamento 702

Fotos extraídas do site Apartamento 702

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Convenhamos, Natal é uma cidade um pouco apática no quesito ‘aglomerações espontâneas em espaços públicos’. Conseguir reunir tanta gente assim na Praça do Gringo’s é louvável. É ótimo! O que mais me chama atenção, no entanto, é que essa espontaneidade se manifesta em torno de uma festa tradicional das culturas norte-americana e europeia, mas difundida mundo afora principalmente pelos Estados Unidos.

Influência norte-americana

Moro em Natal há quase 5 anos e sempre achei curiosa a relação que a cidade estabeleceu com os norte-americanos. Durante a Segunda Guerra Mundial, Natal chegou a ser considerada um dos 4 pontos mais estratégicos do mundo, devido ao seu posicionamento geográfico na esquina do continente sul-americano. Em 1943, após uma conferência que reuniu em Natal os presidentes Getúlio Vargas (Brasil) e Franklin Roosevelt (EUA), os Estados Unidos estabeleceram uma base aérea que ficou conhecida como ‘Trampolim da Vitória’ e que foi importante para a vitória dos aliados.

  Hidro-avião sobre o Rio Potengi, em Natal (RN), na década de 1940

Hidro-avião sobre o Rio Potengi, em Natal (RN), na década de 1940

A presença norte-americana em Natal alterou profundamente o cotidiano da cidade e ainda hoje é possível perceber essa influência. Natal foi praticamente recolonizada. Durante a segunda metade do século XX, por exemplo, a cidade teve um crescimento exponencial ao longo do que hoje é a sua principal via, a Av. Salgado Filho, ligando o Centro à antiga base área norte-americana (que posteriormente deu lugar ao antigo Aeroporto Internacional Augusto Severo).

  Soldados se divertem na praia de Ponta Negra, na década de 1940. Fotografi  a: Ivan Dmitri - Michael Ochs Archives - Getty Image

Soldados se divertem na praia de Ponta Negra, na década de 1940. Fotografia: Ivan Dmitri - Michael Ochs Archives - Getty Image

Ruas já existentes foram rebatizadas (Por que você acha que a Av. Interventor Mário Câmara também é chamada de Avenida 6?) e, recentemente, descobri que a gíria ‘galado’, muito comum por aqui, tem sua origem nas roupas de gala que os soldados americanos usavam nas festas da cidade. Sem falar que ninguém em Natal é um ‘cara’ ou uma ‘mina’, mas sim um ‘boy’ ou até mesmo umA ‘boy’ ou ‘boyzinha’. Há quem diga ainda que os natalenses foram os primeiros brasileiros a tomar Coca-Cola e a mascar chicletes.

Sendo assim, não é de se espantar que o maior Halloween de rua do Brasil aconteça espontaneamente em Natal, numa praça que é reconhecida pelo nome de Gringo’s, graças a um boy que veio dos Estados Unidos exclusivamente para abrir um bar de rock por aqui, como vocês poderão ver no documentário. Curioso, né?

Querida, acho que saturei o bebê...

Vocês viram que eu fiz uma versão for kids do meu avatar, né? Por causa do Dia das Crianças e tal.

Aí eu resolvi exercitar o uso de cores e aquarela na aula de desenho e olha o que aconteceu:

  Onde aperta Ctrl =

Onde aperta Ctrl =

Acho que pesei a mão na saturação do Mini Rê. E agora, professor? Embarco de vez no tom mais escuro ou ainda tem como voltar atrás? Só fosse no Illustrator, eu ia no Ctrl + Z e pronto.

E aproveitando a oportunidade, olha aí a foto que serviu de base para esse trabalho:

  Sendo charmoso na praia de Japaratinga (AL), em 1990

Sendo charmoso na praia de Japaratinga (AL), em 1990

Mais imagens do processo:

  Santa mesa de luz

Santa mesa de luz

  A prancheta onde a magia acontece

A prancheta onde a magia acontece

Entre o nanquim e o vetor: sobre como comecei a ter aulas de desenho

De alguma maneira algo deu certo na minha vida e eu me tornei professor de Computação Gráfica & Editoração Eletrônica em um curso de Publicidade & Propaganda.

  Meu primeiro exercício nas aulas de desenho.

Meu primeiro exercício nas aulas de desenho.

Descobri que tinha facilidade com softwares de desenho vetorial e edição de imagens ainda no primeiro ano da faculdade de Jornalismo. É, eu sou jornalista. Mas a minha trajetória na profissão sempre esteve ligada à visualidade. Isso fez de mim um diagramador de jornais e revistas e logo comecei a produzir folhetos, cartazes e todo tipo de material para web. Alguma habilidade eu devo ter.

Então percebi que, embora tivesse um bom desempenho utilizando ferramentas de desenho digital (a ponto de poder repassar esse conhecimento em sala de aula para meus alunos), eu não tinha orientação técnica nenhuma para desenhar à mão livre. Por isso resolvi ter aulas. Tudo bonitinho e nos conformes: professor, prancheta e exercícios de observação.

De cara, vi que muitas das ações que eu pratico no Photoshop e no Illustrator são possíveis de se fazer também com lápis 6B e papel. Não tem Ctrl + Z, mas dá para apagar, refazer, ajeitar, apagar novamente, refazer e ajeitar. Até dar certo. Às vezes cansa, mas o resultado costuma deixar aquele brilho nos olhos.

As aulas são no ateliê do professor, que nos auxilia individualmente. Alguns colegas fazem trabalhos impressionantes. Tenho feito exercícios de mimeses, ou seja, observo uma imagem e tento reproduzi-la no papel. Desenho suas formas e depois vou refinando o traço, corrigindo, aplicando sombra onde há sombra e deixando a luz se manifestar onde há luz. Finalmente começo a entender essa dinâmica de luz e sombra, minha maior dificuldade. E agora meus desenhos ganham volume.

Já é o melhor investimento de 2015.

Aqui tem mais:

Centro de Maceió: memória afetiva

A Pinacoteca Universitária, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), é um dos meus lugares preferidos em Maceió. O espaço recebe exposições temporárias de artistas do Brasil inteiro e está sempre aberto ao público. De passagem pela cidade, visitei em julho a exposição ‘Avulsas Inoportunas’, da artista mineira Alessandra Cunha.

  Uma das salas da exposição ‘Avulsas Inoportunas’, da artista mineira Alessandra Cunha

Uma das salas da exposição ‘Avulsas Inoportunas’, da artista mineira Alessandra Cunha

Todo mundo que circula pelo centro da cidade merece entrar na galeria de vez em quando e se permitir passar alguns minutos ali. Um silêncio tão bom, uma paz tão grande. Me sinto muito à vontade lá. Sem falar que a Pinacoteca está localizada em um dos quadrados culturais mais legais da cidade, próxima ao Museu Théo Brandão e à casa do poeta Jorge de Lima.

Aliás, o centro de Maceió por si só já é inspirador. Um misto de memória + decadência + resistência pulsante. Tenho um carinho especial por essa parte da cidade, onde cresci. Apesar do mal gosto das fachadas do comércio contemporâneo, que escondem os casarões antigos, a gente ainda consegue perceber a beleza deles se lembrar de olhar para o alto, acima das placas.

  Fachada da Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos

Fachada da Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos

Naquele mesma ocasião, ainda fui conferir a reforma da Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos, também no Centro, que desde 2013 homenageia nosso escritor alagoano mais ilustre. Graciliano não apenas rebatizou a Biblioteca, como também ganhou um memorial singelo, porém honesto, contando fatos marcantes de sua vida e obra.

Além do acervo de livros e jornais, o antigo Palacete do Barão de Jaraguá abriga ainda uma extensa coleção de livros em braile, salas com computadores para pesquisa, espaço destinado à literatura infantil e um interessante acervo de obras de artes visuais em exposição permanente pelas paredes do casarão.

Só acho que redescobrir o Centro sempre vale a pena.

  Tela de Orlando Santos, exposta na Biblioteca Pública, exaltando o folclore alagoano

Tela de Orlando Santos, exposta na Biblioteca Pública, exaltando o folclore alagoano

  O Preto Velho é uma figura recorrente no acervo pictórico da Biblioteca. Infelizmente, não consegui identificar a assinatura do autor na tela

O Preto Velho é uma figura recorrente no acervo pictórico da Biblioteca. Infelizmente, não consegui identificar a assinatura do autor na tela

  Por dentro da Biblioteca

Por dentro da Biblioteca


SERVIÇO:

Horário:
Segunda à sexta: 8h às 18h
Sábado: 9h às 13h

 

Pinacoteca Universitária da Ufal
Endereço: Praça Visconde de Sinimbu, 206, 1º piso - Centro. Maceió - Alagoas (Espaço Cultural Salomão de Barros Lima). Telefone: (82) 3214-1545 | 3214-1428
E-mail:pinaufal@gmail.com


Horário:
Segunda à sexta: 9h às 17h

 

Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos
Endereço: Praça Dom Pedro II, S/N - Centro
Maceió - Alagoas. Telefone: (82) 3315-7877

 

A mercearia que embrulhava sabão com arte e sonhos de criança

Na mercearia do meu pai, eu era freguês do papel de embrulho. Daquele bem rústico, reciclado, marrom. Ele ficava disponível no balcão, pronto para embalar barras de sabão. Era nesse papel que surgiam, à caneta Bic (geralmente na cor azul), minhas sereias, princesas e noivas. Sempre mulheres. Sempre longos e exuberantes vestidos, cabelos extravagantes, curvas sinuosas.

Quando não era no papel de embrulho, era no papel que embalava os maços de cigarro, geralmente das marcas Derby Azul ou Hollywood — os mais vendidos. A identidade visual dos cigarros cobria toda a superfície do papel, mas seu verso era vazio, branquinho, ideal para os meus desenhos. Muitas vezes esse papel também acabava embrulhando outros produtos da mercearia e minha arte infantil ia parar na casa dos clientes. Quase uma exposição itinerante pelo bairro.

  Já nem sei quantos anos tem esse desenho que eu fiz. =O

Já nem sei quantos anos tem esse desenho que eu fiz. =O

Muitas vezes esse papel também acabava embrulhando outros produtos da mercearia e minha arte infantil ia parar na casa dos clientes. Quase uma exposição itinerante pelo bairro.

Eu desenhava praticamente todos os dias, mais de uma vez por dia. Pegava papel e caneta, me debruçava sobre um dos freezers (de sorvete ou de cerveja) e ficava ali, dono do tempo, deixando a imaginação fluir, imerso numa realidade paralela que só se desfazia quando alguém precisava abrir o freezer.

Às vezes me questionavam o porquê de eu sempre desenhar os mesmos temas, mas era instantâneo: o primeiro traço sempre me levava à figura feminina. O que, aliás, acontece até hoje. Embora eu fosse uma criança misteriosamente atenta às minúcias das formas, das cores, dos padrões e das texturas das coisas, eu nutria certo fascínio pelo formato curvilíneo que o corpo feminino consegue assumir. Talvez Freud explique. Se tiver algum psicanalista de passagem pelo blog, por favor, fique à vontade.

E vocês, têm um tema recorrente na hora de desenhar? Conte-me mais sobre as suas obsessões.

  Umbigo ou o numeral 6? Detalhe de um desenho que fiz em 2001.

Umbigo ou o numeral 6? Detalhe de um desenho que fiz em 2001.

*Essa é a memória mais antiga que eu tenho sobre o meu envolvimento com a arte (sim, a mercearia foi praticamente o meu primeiro ateliê).

Assumindo riscos

Arte é muita coisa. Inclusive é ponto, é linha, é traço, é risco. Um risco que por muito tempo eu preferi não assumir por medo, que também não é pouca coisa.

O que você vai ser quando crescer? Artista, responderia naturalmente a criança que fui. Como também era natural pegar papel e caneta: desenhar todo dia um mundo diferente. Mas o mundo onde cresci me dizia que eu não podia. Tu não pode, Renato. Isso é coisa pra cidade grande. Rio de Janeiro, São Paulo, Nova York, Hollywood. Assim, família, escola e sociedade encontraram maneiras sutis de podar o artista que nasceu comigo.

E a arte se tornou essa maçã vermelha, suculenta, que eu rodeei, rodeei e nunca mordi. Quem vive de desenho, Renato? Você não é rico. Música? Cinema? Teatro? Literatura? Desça. Talvez o jornalismo me torne um escritor. E lá estou, mais uma vítima do desengano, pronto para escrever sobre o último boletim policial.

Me tornei expectador, ouvinte, leitor, crítico, pesquisador, professor. Artista, nunca. E só agora, quando tudo se tornou insustentável, consigo perceber que todas as minhas rotas de fuga sempre me devolveram ao caminho do risco. É hora de assumir esse risco e riscar, riscar, errar e arriscar.

Esse blog é minha redenção. Sou eu dizendo para o mundo que a criança que ainda sou vai morder todas as frutas e experimentar todas as cores.

Eu vou ser o que eu quiser.