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arte e outros riscos

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Giro cultural: 9 exposições de arte no Nordeste para conferir até o fim de outubro

Com o cenário político tão conturbado que estamos vivendo neste mês de outubro, será que sobra algum espaço para a arte? A resposta é mil vezes, sim! Afinal, a arte por si só já é uma atividade política e há de continuar resistindo, sendo mais um espaço de contraponto crítico e de reverberação de questões sociais, históricas e também estéticas. Por isso, frequentar exposições de arte é também estar inserido no meio do debate político e o Pigmum tá aqui pra te ajudar.

Nesta edição do nosso giro cultural pelas exposições que estão em exibição nas capitais nordestinas, o viés político aparece na obra de Sunshine Santos, em cartaz em São Luís (MA), com uma obra que aborda o tema da condição da mulher negra no Brasil; aparece também no Recife (PE), com o trabalho fotográfico de Helder Ferrer sobre a maior reserva de Mata Atlântica de Pernambuco; tem também uma mostra coletiva em João Pessoa (PB) que discute a falência dos modos de vida na contemporaneidade; e em Natal (RN), a artista carioca Sofia Bauchwitz trata da insuficiência de se transmitir a barbárie social por meio de imagens.

E esses são só alguns destaques. Motivos para incluir essas exposições na sua agenda política não vão faltar. Confira:


Salvador (BA)

‘O Trem da História’  propõe uma viagem imaginária pelos diferentes períodos da história da arte

‘O Trem da História’ propõe uma viagem imaginária pelos diferentes períodos da história da arte

Já que outubro é o mês da criança, a gente começa com uma exposição pensada especialmente para o público infanto-juvenil. Inspirada no livro ‘O Trem da História’, de Katia Canton, a mostra propõe uma viagem imaginária de trem pelos diferentes períodos da história da arte, apresentando réplicas de obras de artistas que marcaram época, como Tarsila do Amaral, Van Gogh, Monet, Gauguin, Portinari, Degas, Picasso, Bosch, Renoir e muitos outros. Para se aproximar das crianças, as obras foram dispostas em uma altura que permite a elas a apreciação de detalhes. É uma ótima oportunidade para inseri-las no mundo da arte, não acham?

A mostra foi pensada principalmente para o público infantil

A mostra foi pensada principalmente para o público infantil

Reprodução de uma pintura de Bosch

Reprodução de uma pintura de Bosch

Reprodução de uma pintura de Rembrandt

Reprodução de uma pintura de Rembrandt

SERVIÇO:

Exposição: O Trem da História

Artistas: Coletiva

Até 16 de dezembro, de terça-feira a domingo, das 09 às 18h

Local: Caixa Cultural Salvador

Endereço: Rua Carlos Gomes, 57, Centro. Salvador – Bahia. Telefone: (71) 3421-4200

Entrada: Entrada franca


Maceió (AL)

O Salão Nacional de Arte Contemporânea de Alagoas já está em sua quarta edição

O Salão Nacional de Arte Contemporânea de Alagoas já está em sua quarta edição

O Complexo Cultural Teatro Deodoro recebe o IV Salão Nacional de Arte Contemporânea de Alagoas, reunindo 40 artistas brasileiros e três representantes internacionais, as artistas Alessandra Zucotti (Itália), Maria Rezende (Portugal) e Lúcia Hinz (radicada na Alemanha). Esta é a primeira vez que o salão recebe obras de artistas de outros países. São dezenas de trabalhos, entre pinturas, esculturas, instalações, desenhos, fotografias e videoarte, trazendo ao estado um recorte da atual produção artística brasileira.

Instalação com barquinhos de papel no espelho d’água da galeria

Instalação com barquinhos de papel no espelho d’água da galeria

Pintura de Pedro Dias

Pintura de Pedro Dias

A exposição recebeu 40 artistas ao todo

A exposição recebeu 40 artistas ao todo

 SERVIÇO:

Exposição: IV Salão de Arte Contemporânea de Alagoas

Artista: Coletiva

Até 3 de novembro, de segunda a sábado, das 8h às 18h, às quartas-feiras, das 8h às 20h e aos domingos e feriados, das 14h às 17h

Local: Complexo Cultural Teatro Deodoro

Endereço: Rua Barão de Maceió, s/n - Centro. Maceió - Alagoas. Telefone: (82) 3315-5660

Entrada gratuita.


João Pessoa (PB)

Montagem de  ‘Iminência da Tragêdia’  durante temporada em São Paulo

Montagem de ‘Iminência da Tragêdia’ durante temporada em São Paulo

 As urgências dos nossos tempos, as falências dos modos de vida e os jogos de enquadramento do mundo são alguns dos temas explorados pelas artistas Denise Alves-Rodrigues, Fabiana Faleiros, Marta Pennerr, Marina Zilbersztein, Noara Quintana e Potira Maia na coletiva ‘Iminência da Tragédia’. Em tempos de fake news, os questionamentos sobre nossa percepção da realidade parecem – mais do que nunca – ser um campo onde a arte contemporânea inevitavelmente deve estar, inclusive promovendo o estímulo ao pensamento crítico. A mostra traz artistas que vivem em São Paulo e na Paraíba. A ideia é promover o intercâmbio e a circulação da produção artística contemporânea em diferentes circuitos expositivos.

Iminência da Tragédia Casarão 34
Pinturas de Potira Maia

Pinturas de Potira Maia

Pintura de Potira Maia

Pintura de Potira Maia


SERVIÇO:

Exposição: Iminência da Tragédia

Artista: Coletiva

Até 20 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 17h

Local: Casarão 34

Endereço: Praça Dom Adauto, 34 – Centro. João Pessoa – Paraíba. Telefone: (83) 3218-9708

Entrada gratuita.


Fortaleza (CE)

Os retratos pintados por Juca Máximo. Fotografia: Márcia Travessoni Galeria

Os retratos pintados por Juca Máximo. Fotografia: Márcia Travessoni Galeria

Com passagem por países como Áustria, Alemanha, Canadá, Japão e Paquistão, o cearense Juca Máximo finalmente realiza sua primeira exposição em Fortaleza. São 17 pinturas com retratos de gente que o artista, silenciosamente, observa nas ruas, em seu cotidiano, transformando rostos em traços, cores e texturas. A escolha do restaurante Sótão Moleskine como espaço expositivo não foi por acaso. Segundo o artista, sua intenção era estar mais próximo do público, em um local de bastante movimento.

Juca Máximo Me Tenha, Distância
Juca Máximo Me Tenha, Distância
As obras de Juca Máximo já foram expostas em vários países. Fotografia: Márcia Travessoni Galeria

As obras de Juca Máximo já foram expostas em vários países. Fotografia: Márcia Travessoni Galeria

SERVIÇO:

Exposição: Me tenha, distância

Artista: Juca Máximo

Até 16 de novembro, de segunda a quinta-feira, das 17h às 00h e de sexta-feira a domingo, das 12h às 00h

Local: Restaurante Sótão Moleskine

Endereço: Rua Professor Dias da Rocha, 578 – Meireles. Fortaleza – Ceará. Telefone: (85) 3037-1700

Entrada gratuita.


Natal (RN)

Composição de Sofia Bauchwitz

Composição de Sofia Bauchwitz

Na exposição ‘Até sair do mapa’, a carioca Sofia Bauchwitz reafirma sua luta pelo direito de caminhar pelo mundo em busca de um horizonte renovado. A artista apresenta uma instalação com textos, fotografias, pinturas e pedras, entrando no campo tridimensional para questionar as limitações presentes no ato de enquadrar imagens, sejam em fotografias, quadros ou janelas. Trata-se da insuficiência de se transmitir a barbárie social por meio desses enquadramentos. A exposição nos convida a sair do plano e ganhar o mundo lá fora.

Sofia Bauchwitz
Sofia Bauchwitz
Sofia Bauchwitz

SERVIÇO:

Exposição: Até sair do mapa

Artista: Sofia Bauchwitz

Até 26 de outubro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h

Local: Galeria Conviv’art

Endereço: Avenida Senador Salgado Filho, 3000, Sala 11, Campus Universitário UFRN – Lagoa Nova. Natal – Rio Grande do Norte. Telefone: (84) 3215-3240 (Centro de Convivência Djalma Marinho)

E-mail: galeriaconvivart@gmail.com

Entrada gratuita.


Teresina (PI)

Nesta exposição, as pintura de Avelar Amorim trazem crianças e diferentes maneiras de se entender o sentido da palavra erê

Nesta exposição, as pintura de Avelar Amorim trazem crianças e diferentes maneiras de se entender o sentido da palavra erê

Ainda em clima de mês da criança, o artista visual piauiense Avelar Amorim celebra as alegrias da infância com a diversidade de cores de seu trabalho, na exposição ‘Erê’, que no idioma iorubá é uma expressão associada à ‘brincadeira’. A exposição está em cartaz no café O Guarany, no Jóquei, e apresenta 23 pinturas, entre acrílico sobre tela e aquarela.

Avelar Amorim Erê
Avelar Amorim Erê

SERVIÇO:

Exposição: Erê

Artista: Avelar Amorim

Até 29 de outubro, de segunda-feira a sábado, das 9h às 21h

Local: Cafeteria O Guarany

Endereço: Rua Aviador Irapuã Rocha, 1212 – Jóquei, Teresina – Piauí. Telefone: (86) 3233-3311

Entrada gratuita.


Recife (PE)

Fotografia: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Fotografia: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

A Arte Plural Galeria recebe as fotografias de Helder Ferrer. Fotografia: Hélia Scheppa

A Arte Plural Galeria recebe as fotografias de Helder Ferrer. Fotografia: Hélia Scheppa

O ciclo de renovação da Mata Atlântica é tema da exposição ‘Caos – Fertilidade e Mistérios’, do fotógrafo Helder Ferrer. São 22 imagens, feitas em cenários naturais de Aldeia, na região metropolitana do Recife. É lá que está a maior reserva de Mata Atlântica de Pernambuco e onde o artista foi morar há cerca de 2 anos. Desde então, o interesse pela floresta se tornou constante e o artista passou a se aventurar mata adentro, descobrindo sons, texturas e detalhes da fauna e da flora do lugar. Acima de tudo, os registros de Ferrer também expressam um grito da natureza pela sua preservação.

‘Fertilidade’,  pigmento mineral sobre papel, foto de Helder Ferrer, presente na exposição

‘Fertilidade’, pigmento mineral sobre papel, foto de Helder Ferrer, presente na exposição

‘Mistério 1’ , pigmento mineral sobre papel, foto de Helder Ferrer, presente na exposição

‘Mistério 1’, pigmento mineral sobre papel, foto de Helder Ferrer, presente na exposição

SERVIÇO:

Exposição: Caos – Fertilidade e Mistérios

Artista: Helder Ferrer

Até 21 de dezembro, de terça a sexta-feira, das 13h às 19h e aos sábados, das 16h às 20h

Local: Arte Plural Galeria

Endereço: Rua da Moeda, 140, Recife Antigo. Recife – Pernambuco. Telefone: (81) 3424-4431

Entrada gratuita.


Aracaju (SE)

Pequena instalação de Rick Rodrigues

Pequena instalação de Rick Rodrigues

O que é um lar? Já parou pra pensar sobre as qualidades que estão relacionadas a esse conceito? O espaço de habitação, o conforto da intimidade, a moradia como proteção... essas são algumas discussões que o artista visual capixaba Rick Rodrigues propõe em seu trabalho poético. Composta por desenhos, bordados, objetos e pequenas instalações, a exposição ‘Eu sou o meu lar’ expressa com sutileza que um lar é muito mais do que uma casa.

A sutileza poética de Rick Rodrigues se manifesta principalmente em seus bordados

A sutileza poética de Rick Rodrigues se manifesta principalmente em seus bordados

Rick Rodrigues Eu sou o meu lar
Rick Rodrigues Eu sou o meu lar

SERVIÇO:

Exposição: Eu sou o meu lar

Artista: Rick Rodrigues

Até 8 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 10h às 20h

Local: Galeria de Arte do Sesc-SE

Endereço: Rua Senador Rollemberg, 301 – São José. Aracaju – Sergipe. Telefone: (79) 3216-2753

E-mail: sescgaleria@gmail.com

Entrada gratuita.


São Luís (MA)

Walter Sá propõe uma releitura pop do cazumba, personagem do bumba-meu-boi

Walter Sá propõe uma releitura pop do cazumba, personagem do bumba-meu-boi

O Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM) recebe três artistas visuais na edição deste ano do projeto Ocupa CCVM 2018. Os artistas, que foram selecionados via edital, realizaram obras especialmente para os espaços do CCVM, são eles: ‘Nega Sim, Sua Não’, de Sunshine Santos, que aborda o tema da condição da mulher negra no Brasil; ‘#caz(1)bando’, do artista Walter Sá, que propõe uma releitura pop da figura do cazumba, personagem do bumba-meu-boi da Baixada Maranhense; e por fim, ‘Gestos Fósseis’, instalação de Romana Maria, que apresenta suas investigações sobre a gestualidade na escultura em cerâmica.

Instalação  ‘Gestos Fósseis’ , de Romana Maria

Instalação ‘Gestos Fósseis’, de Romana Maria

Detalhe da obra  ‘Nega Sim, Sua Não’ , de Sunshine Santos

Detalhe da obra ‘Nega Sim, Sua Não’, de Sunshine Santos

SERVIÇO:

Exposição: Ocupa CCVM 2018

Artista: Coletiva

Até 22 de dezembro, de terça-feira a domingo, das 10h às 19h

Local: Centro Cultural Vale Maranhão

Endereço: Av. Henrique Leal, 149 – Praia Grande. São Luís - Maranhão.

Entrada gratuita.

Por que o clipe de Beyoncé e Jay-Z no Louvre é tão representativo do ponto de vista da arte

Vocês têm noção do poder desta imagem e de como ela questiona e até se impõe diante do sistema da arte e de sua história tradicionalmente eurocêntrica e elitista?

O casal mais poderoso do showbiz e o retrato da Mona Lisa, um dos quadros mais reproduzidos do mundo da arte

O casal mais poderoso do showbiz e o retrato da Mona Lisa, um dos quadros mais reproduzidos do mundo da arte

Beyoncé e Jay-Z, o casal mais influente da indústria musical, se colocam à frente daquela que talvez seja a imagem mais icônica do mundo da arte – a Mona Lisa (1503-1506), de Leonardo da Vinci –, posicionando seus corpos negros em um espaço marcado pela branquitude e com raízes fincadas no colonialismo: o museu.

E não é qualquer museu! Para gravar seu novo clipe, ‘Apeshit’, o casal Carter simplesmente fechou o Louvre, o museu mais visitado do mundo! Beyoncé novamente pegou todo mundo de surpresa e lançou, durante um show na noite de sábado (16), não apenas um novo vídeo, mas um disco inteirinho! ‘Everything Is Love’ tem 9 faixas inéditas e é uma parceria com seu marido, o rapper Jay-Z. O álbum foi disponibilizado primeiro no Tidal, a plataforma de streaming comandada pelo rapper, mas agora já pode ser encontrado também no Spotify, Apple Music e ITunes. Já o clipe de ‘Apeshit’ todo mundo pode conferir no YouTube. Veja:

Com mais de 15 mil visitas por dia, o Louvre talvez seja o principal símbolo da cultura e da memória ocidental, com um acervo formado por mais de 35 mil peças, muitas delas oriundas de saques realizados contra nações africanas e asiáticas.

Inaugurado em 1793 no contexto da Revolução Francesa, o Museu do Louvre nasce sob o regime de Napoleão Bonaparte para exibir os tesouros confiscados dos povos conquistados. Nas entrelinhas do glamour e da imponência, o Louvre também narra, portanto, uma história de opressão que ecoa até hoje.

Beyoncé e suas bailarinas dançam em frente ao quadro   'A Coroação de Napoleão'  (1807), de Jacques-Louis David. É interessante perceber como os movimentos desses corpos negros se colocam como referência à cultura negra, diante de uma pintura encomendada pelo próprio Napoleão

Beyoncé e suas bailarinas dançam em frente ao quadro 'A Coroação de Napoleão' (1807), de Jacques-Louis David. É interessante perceber como os movimentos desses corpos negros se colocam como referência à cultura negra, diante de uma pintura encomendada pelo próprio Napoleão

Não é por menos que, logo no início da música, a frase ‘I can't believe we made it’ (algo como, ‘eu não acredito que nós conseguimos’) ganha um sentido tão representativo. Afinal, a postura do casal frente a obras de arte como a Mona Lisa ou a Vênus de Milo acaba se transformando também em um ato político com um potencial midiático que poucos artistas inseridos no sistema da arte contemporânea teriam a oportunidade de alcançar. Eles entram no museu pela porta da frente e sabem o quanto isso é valioso e talvez sem precedentes.

O casal Carter e a Vênus de Milo, a deusa do amor e da beleza. O traje de Beyoncé  revela as curvas de seu corpo e a aproxima da nudez da estátua grega, num diálogo (ou enfrentamento) direto com o padrão estético clássico de beleza

O casal Carter e a Vênus de Milo, a deusa do amor e da beleza. O traje de Beyoncé  revela as curvas de seu corpo e a aproxima da nudez da estátua grega, num diálogo (ou enfrentamento) direto com o padrão estético clássico de beleza

Quantas pessoas levaram o hip-hop aos salões solenes do Louvre? Quantas pessoas conseguem ficar a sós com a Mona Lisa? E com tamanha proximidade! Lado a lado com a pintura mais reverenciada de Leonardo da Vinci. Aliás, lado a lado, não! O casal dá as costas à Mona Lisa na maior parte do tempo. Pouca gente se atreveria e pouca gente teria a oportunidade de fazer isso. Eles fizeram. Fecharam o museu, firmaram um discurso de negritude (quase todo o elenco é negro) em um espaço historicamente e predominantemente branco e relegaram à Mona Lisa – aqui representando a narrativa linear que ainda prevalece na história da arte – um papel coadjuvante. Ela praticamente faz um feat. com a dupla nesse clipe!

Quase todo o elenco do clipe é formado por pessoas com vários tons de pele negra

Quase todo o elenco do clipe é formado por pessoas com vários tons de pele negra

Beyoncé Louvre Jay-Z Apeshit

O ato de dar as costas à Mona Lisa se repete ainda em outra cena, em que um casal de bailarinos negros figura frente à pintura, que permanece ao fundo, desfocada, reduzida quase à um mero ornamento, enquanto a moça penteia o cabelo crespo do rapaz. E essa ação se torna protagonista na imagem, revelando a dimensão política que está impregnada no cabelo crespo e deixando para trás uma tradição inteira, que já não parece suficiente para contar a(s) história(s) do século XXI. A imagem é tão forte que inclusive originou a capa do disco:

A capa do disco  'Everything Is Love'.  A Mona Lisa, desfocada ao fundo, atua como coadjuvante de um ato, ao mesmo tempo, sensível e extremamente político

A capa do disco 'Everything Is Love'. A Mona Lisa, desfocada ao fundo, atua como coadjuvante de um ato, ao mesmo tempo, sensível e extremamente político

Beyoncé e Jay-Z ainda parecem tensionar, de certa forma, sua própria condição como artistas nesse sistema da arte, tão cheio de contradições, tão difícil de definir e que aparentemente ainda prefere se manter distante de manifestações artísticas que nascem de fenômenos midiáticos de massa – por mais que Andy Warhol tenha colocado esse tema em debate na década de 1960. Com esse clipe, o casal Carter parece questionar também o que, de fato, significa ser artista na contemporaneidade. Qual é o espaço de artistas da indústria cultural na(s) história(s) que a historiografia da arte contará de agora em diante? Ainda faz sentido considerá-los como produtos descartáveis e de entretenimento, diante da inegável influência deles em nossa cultura?

Os Carters posicionados no Louvre, entre os grandes nomes da história da arte. Há espaço para artistas como eles no museu?

Os Carters posicionados no Louvre, entre os grandes nomes da história da arte. Há espaço para artistas como eles no museu?

Parece um equívoco negligenciar a potencialidade da crítica feita pelos Carters e as centenas de milhões de visualizações que esse clipe pode atingir em poucos meses. Poucas obras de arte contemporânea - mesmo as mais questionadoras - têm a chance de obter tamanha visibilidade e impacto cultural.

No clipe, ambos sabem se impor e se fazer caber no Louvre, entre os grandes nomes da história da arte. Até arrisco dizer que pretendem se colocar em pé de igualdade com Leonardo da Vinci, no sentido de que também são capazes de formatar um discurso poético capaz de reverberar globalmente, semelhante à notoriedade que Da Vinci ou Michelangelo obtiveram ainda em vida na Europa do século XVI (claro, sem ignorar as devidas proporções e as diferentes competências).

Em diversos momentos do clipe, Beyoncé faz referência à cultura negra, enchendo o Louvre de negritude. No vídeo, é possível ver também as raríssimas vezes em que personagens negros figuram nos quadros, geralmente em papeis de sujeição

Em diversos momentos do clipe, Beyoncé faz referência à cultura negra, enchendo o Louvre de negritude. No vídeo, é possível ver também as raríssimas vezes em que personagens negros figuram nos quadros, geralmente em papeis de sujeição

É poder demais que emana dessas imagens!!! E por mais que o casal pareça até um pouco prepotente no vídeo, precisamos admitir que eles têm condições suficientes de propor essa discussão no cerne da arte. Por isso, talvez ‘Apeshit’ seja um manifesto com a cara (e os meios) do século XXI.

25 pinturas de diferentes épocas para celebrar a chegada da primavera

A primavera chegou! A estação mais florida do ano começa no dia 23 de setembro no hemisfério sul, exatamente onde estamos aqui no Brasil! Entende agora o porquê das ruas da sua cidade estarem mais floridas nos últimos dias?

Considerada a estação com as temperaturas mais agradáveis, a primavera nos remete também à alegria, à variedade de cores e ao romantismo. É também a estação dos pombinhos apaixonados. E é claro que a arte tem tudo a ver com a percepção simbólica que nós temos da primavera, principalmente no contexto europeu, onde o clima temperado acentua as características de cada estação do ano.

A história da arte está repleta de artistas que buscaram inspiração na primavera. Se a gente prestar atenção dá pra compreender melhor as transformações pelas quais a arte passou ao longo dos séculos só observando como jardins e flores aparecem nas obras desses artistas.

Começando pelo quadro renascentista ‘A Primavera’, do italiano Botticelli (sim, aquele mesmo do famoso ‘O Nascimento de Vênus’). A pintura de 1482 utiliza a técnica de têmpora sobre madeira e a maioria dos críticos de arte acredita que a obra retrata um grupo de figuras mitológicas num jardim primaveril. As flores estão presentes no chão, nas árvores e estampam também o vestido de uma das personagens.

1 -  'A Primavera'  (1482), de Botticelli

1 - 'A Primavera' (1482), de Botticelli

Em ‘O Jardim das Delícias Terrenas’, o holandês Hieronymus Bosch nos apresenta sua versão para a história do mundo, a partir da criação. No primeiro painel, vemos Adão e Eva bem inocentes no Jardim do Éden. Já no painel central (o maior, diga-se de passagem), todo mundo despirocou depois de descobrir os prazeres carnais e resolveu fazer um amorzinho bem gostoso no meio das florezinhas. E por último, a hora do castigo! A representação do inferno, onde o ser humano é condenado pelo pecado da luxúria. Triste fim. Agora admita, é ou não é uma pintura surreal demais para uma obra que foi pintada em 1504? Eu amo!

2 -  ‘O Jardim das Delícias Terrenas’  (1504), do holandês Hieronymus Bosch

2 - ‘O Jardim das Delícias Terrenas’ (1504), do holandês Hieronymus Bosch

Outro carinha criativo do século XVI foi o italiano Giuseppe Arcimboldo, que usava imagens da natureza – geralmente, frutas e legumes – para compor fisionomias humanas! Se me dissessem que era uma artista do século XX eu acreditava! Será que Arcimboldo e Bosch se conheceram? Em ‘Flora’ (1591), eu não preciso dizer mais nada:

3 -  'Flora'  (1591), de Giuseppe Arcimboldo

3 - 'Flora' (1591), de Giuseppe Arcimboldo

A arte flamenga de Pieter Bruegel, O Jovem, retratava com frequência o cotidiano de camponeses. Em ‘Preparação dos Canteiros’ (1617), os trabalhadores cuidam de um pequeno jardim.

4 -  'Preparação dos Canteiros'  (1617), de Pieter Bruegel, O Jovem

4 - 'Preparação dos Canteiros' (1617), de Pieter Bruegel, O Jovem

Outro membro da família Bruegel também se destacou na arte: Jan Bruegel, ao lado de outro pintor flamengo conhecido, Peter Paul Rubens, resolveu criar uma série de pinturas tendo os cinco sentidos como tema. Em ‘O Sentido de Cheiro’ (1618), adivinha onde está a moça do quadro? Num jardim cheio de flores, é claro!

5 -  'O Sentido do Cheiro'  (1618), da parceria entre os artistas Jan Bruegel e Peter Rubens Paul

5 - 'O Sentido do Cheiro' (1618), da parceria entre os artistas Jan Bruegel e Peter Rubens Paul

Daqui a gente já parte para a França do século XVIII e seu estilo Rococó, que prezava por fórmulas decorativas e ornamentais. E tem coisa mais ornamental do que flor? Não, né! Nesse período, os artistas prezaram pela delicadeza, elegância e graça, retratando o cotidiano da aristocracia e a vida galante da corte e dos palácios franceses. Tudo muito inacessível à plebe. Muitos dos símbolos e clichês românticos que ainda insistimos em sustentar no século XXI tiverem início nesse período.

6 -  'A Terra'  (1730), de Nicolas Lancret

6 - 'A Terra' (1730), de Nicolas Lancret

 7 - A famosa pintura  'O Balanço'  (1766), do francês Jean-Honoré Fragonard

 7 - A famosa pintura 'O Balanço' (1766), do francês Jean-Honoré Fragonard

8 -  'Gathering Flowers'  (Século XIX), do americano Daniel Ridgway Knight

8 - 'Gathering Flowers' (Século XIX), do americano Daniel Ridgway Knight

A partir da segunda metade do século XIX, a arte passa por grandes transformações, principalmente após a difusão da fotografia. A pintura realista de artistas como Daniel Ridgway Knight começa a dar lugar a outras manifestações estéticas, como o Impressionismo de Degas, Renoir e Monet ou os pós-impressionistas Paul Cézanne, Vincent van Gogh e Paul Gauguin.

As cores passam a vibrar de maneira diferente nas telas. Importa mais a impressão que a luz que incide sobre os jardins provoca em nossos olhos, do que a representação fiel de suas flores.

9 -  'Mulher Sentada ao Lado de Um Vaso de Flores'  (1865), de Edgar Degas

9 - 'Mulher Sentada ao Lado de Um Vaso de Flores' (1865), de Edgar Degas

10 - O impressionismo de Renoir em  'Mulher com Guarda-sol em um Jardim'  (1875)

10 - O impressionismo de Renoir em 'Mulher com Guarda-sol em um Jardim' (1875)

11 -  'Na Pradaria'  (1876), de Claude Monet

11 - 'Na Pradaria' (1876), de Claude Monet

12 -  'Casal no Jardim'  (1873), de Paul Cézanne

12 - 'Casal no Jardim' (1873), de Paul Cézanne

13 - O clássico  'Doze girassóis numa jarra'  (1888), de Vincent Van Gogh

13 - O clássico 'Doze girassóis numa jarra' (1888), de Vincent Van Gogh

14 -  'Women On The River Bank'  (1885), de Georges Seurat

14 - 'Women On The River Bank' (1885), de Georges Seurat

15 -  'Arearea'  (1892), de Paul Gauguin

15 - 'Arearea' (1892), de Paul Gauguin

No século XX, mesmo com a profusão de estilos artísticos, as flores continuaram sendo temas recorrentes na arte.

16 -  Charles Daniel Ward continuou no caminho da arte figurativa, mesmo com as vanguardas europeias em ebulição, como vemos em   'O Progresso da Primavera'  (1905)

16 - Charles Daniel Ward continuou no caminho da arte figurativa, mesmo com as vanguardas europeias em ebulição, como vemos em 'O Progresso da Primavera' (1905)

A brasileira Tarsila do Amaral também foi outra artista que destacou a flora em sua obra, na perspectiva tropical tupiniquim:

17 - O lado tropical da flora em  'O Lago'  (1928), de Tarsila do Amaral

17 - O lado tropical da flora em 'O Lago' (1928), de Tarsila do Amaral

 Você já parou pra pensar em como as flores se comportam durante a noite? O Paul Klee, sim:

18 -  'Growth Of The Night Plants'  (1922), Paul klee

18 - 'Growth Of The Night Plants' (1922), Paul klee

19 - René Magritte também trouxe o tema das flores para a sua arte surrealista, em  'The Blow To The Heart'  (1952)

19 - René Magritte também trouxe o tema das flores para a sua arte surrealista, em 'The Blow To The Heart' (1952)

20 - Outro que também se aproximou do surrealismo foi Paul Delvaux ( que já mereceu um post só pra ele por aqui ). Esse é  'O Jardim' , de 1971

20 - Outro que também se aproximou do surrealismo foi Paul Delvaux (que já mereceu um post só pra ele por aqui). Esse é 'O Jardim', de 1971

21 -  'Mulher com Flores'  (1976), do colombiano Fernando Botero

21 - 'Mulher com Flores' (1976), do colombiano Fernando Botero

Na Pop-Art as flores também tiveram seu espaço. Andy Warhol não produziu apenas Marilyns e Sopas Campbell:

22 -  'Flores'  (1964), de Andy Warhol

22 - 'Flores' (1964), de Andy Warhol

 Observe como as flores no trabalho de Roy Lichtenstein, outro representante da Pop-Art, aparecem num contexto completamente diferente das imagens do Rococó. Aqui elas servem apenas para estampar a lata de lixo:

23 - Ironia e Pop-Art em  'Step-On Can With Leg'  (1961), de  Roy Lichtenstein

23 - Ironia e Pop-Art em 'Step-On Can With Leg' (1961), de Roy Lichtenstein

E por último, alguns trabalhos do século XXI, que trabalham com colagem e pintura digital.:

24 - A colagem digital de Randy Mora, em  'Esperándote'  (2012)

24 - A colagem digital de Randy Mora, em 'Esperándote' (2012)

25 -  'Weeping'  (2013), de Hsiao-Ron Cheng, artista de Taiwan

25 - 'Weeping' (2013), de Hsiao-Ron Cheng, artista de Taiwan

Bônus:

Também já tá permitido trocar e contemplar a sua capinha do CD 'As Quatro Estações - O Show' (2000), de Sandy & Júnior (entendedores entenderão). Hahaha

Obra atemporal.

Obra atemporal.

Agooooora sim a sua primavera já pode começar. Viva!

Ainda dá tempo de inscrever o seu trabalho para o ‘X Congresso Internacional de Estética e História da Arte’

E aí, pessoal, tudo bem com vocês?

O Pigmum passou por um curto período de inatividade, mas já está de volta e com novidades!

Pra começar, precisamos falar sobre o X Congresso Internacional de Estética e História da Arte, que vai rolar em São Paulo, entre os dias 24 e 27 de outubro, com o tema: ‘Escrita da História e (Re)construção das memórias: arte e arquivos em debate’.

Galeria de Arte da Unifor

O evento é promovido pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte (PGEHA) da Universidade de São Paulo (USP) e está com chamada aberta para submissão de artigos até 5 de agosto. Podem participar estudantes de graduação, pós-graduação, artistas e pesquisadores de áreas afins.

Pois é, tá em cima da hora, né? Mas se correr ainda dá tempo! Todo mundo sempre tem guardado aquele trabalho final de disciplina ou aquele texto não-finalizado perdido no Google Drive. Que tal aproveitar esses primeiros dias de agosto para sentar e concluir mais uma obra-prima acadêmica? A inscrição, inclusive, tá custando só R$ 50 Fora Temer (antes conhecido como Real). A mão de se inscrever chega a tremer.

Prédio onde fica o PGEHA, promotor do congresso  

Prédio onde fica o PGEHA, promotor do congresso  

X Congresso de Estática e História da Arte

E convenhamos: o tema é super pertinente, né? Não é de hoje que os artistas contemporâneos têm se apropriado dos mais inusitados materiais e experimentado os mais diversos métodos e linguagens em suas produções. Nesse contexto, como registrar, arquivar ou colocar em circulação obras de arte que muitas vezes são efêmeras ou se diluem no espaço-tempo?

A coisa ainda se torna mais complexa se a gente levar em consideração as obras desenvolvidas e difundidas em tecnologias digitais. Como continuar escrevendo a história da arte (canônica, fundamentada em períodos e estilos estéticos definidos) se nos deparamos agora com narrativas multisequenciais, não lineares e transmidiáticas? Se é tudo ao mesmo tempo, o tempo todo, como será o museu do futuro?

Contemplando Arte

Eu tô sempre pensando sobre isso e, acredite, essas questões ainda estão no olho do furacão da revolução digital, mas o seu artigo também pode se encaixar em uma das quatro linhas do PGEHA: Teoria e Crítica da Arte; Metodologia e Epistemologia da Arte; História e Historiografia da Arte; e Produção e Circulação da Arte.

O congresso tem o objetivo de ‘reunir e apresentar as diversas vertentes de investigação que visam a construção da história’ e de ‘refletir sobre o lugar da cultura e da arte na sociedade contemporânea, onde o tempo se acelera e o espaço se comprime’ (Eu achei tão bonita essa parte!). Gente, imperdível, viu? Se inscrevam!


Serviço: 

 

X Congresso Internacional de Estética e História da Arte
De 24 a 27 de outubro
Local: Auditório Cidade Universitária (USP)

 

Submissão de artigos até 5 de agosto

Inscreva seu trabalho!