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O legado visual das Olimpíadas através de seus pôsteres

As Olimpíadas Rio 2016 chegaram ao fim, mas a chama do espírito olímpico continua acesa no coração do Brasil. Os jogos marcaram profundamente o país, que fez sua melhor campanha em Olimpíadas. Foram 19 medalhas, sendo 7 delas de Ouro.

Mas os brasileiros também deixaram sua marca por meio da identidade visual que acompanhou todos os momentos olímpicos, da entrega de medalhas até os detalhes mais sutis da sinalização gráfica do evento. E se a gente observar direitinho, os pôsteres olímpicos oficiais também podem narrar a história das Olimpíadas e apontar as transformações pelas quais as tendências artísticas e o design passaram nesses últimos 120 anos.

E aí, quais cidades merecem a medalha de ouro no quesito pôster?


O design gráfico esteve presente nas Olimpíadas pelo menos desde a sua primeira edição na era moderna, em 1896. A imagem exalta elementos da cultura grega, como as colunas dos antigos templos e a coroa de louros, um dos símbolos de distinção e glória dos atletas.

1896 - Atenas (Grécia)

1896 - Atenas (Grécia)

1900 - Paris (França)

1900 - Paris (França)

Já nas edições que se seguiram no início do século XX, as Olimpíadas estiveram atreladas às feiras de exposições, que ainda hoje reúnem produtos e inovações tecnológicas de países do mundo todo, foi o caso das Olimpíadas de 1904, em Saint Louis; e dos jogos de 1908, em Londres.

1904 - Saint Louis (EUA)

1904 - Saint Louis (EUA)

1908 - Londres (Reino Unido)

1908 - Londres (Reino Unido)

O primeiro pôster oficial do evento só foi produzido pela Comissão Olímpica em 1912, para os jogos de Estocolmo, na Suécia.

1912 - Estocolmo (Suécia)

1912 - Estocolmo (Suécia)

1920 - Antuérpia (Bélgica)

1920 - Antuérpia (Bélgica)

Nos anos 1920, podemos perceber uma mudança significativa nos cartazes, que continuavam destacando a figura do atleta, embora apresentassem menos elementos visuais. A influência de tendências estéticas como a Art Déco também estava presente.

1924 - Paris (França)

1924 - Paris (França)

1928 - Amsterdã (Holanda)

1928 - Amsterdã (Holanda)

1932 - Los Angeles (EUA)

1932 - Los Angeles (EUA)

1936 - Berlim (Alemanha)

1936 - Berlim (Alemanha)

1948 - Londres (Reino Unido)

1948 - Londres (Reino Unido)

1952 - Helsinque (Finlândia)

1952 - Helsinque (Finlândia)

Em Melbourne, primeira Olimpíada realizada na Oceania, a figura do atleta sai de cena e dá lugar aos elementos geométricos. Os arcos olímpicos se destacam no cartaz.

1956 - Melbourne (Austrália)

1956 - Melbourne (Austrália)

1960 - Roma (Itália)

1960 - Roma (Itália)

Em 1964, foi a vez do Japão sediar os jogos e seu pôster trouxe uma fotografia, exaltando corredores de diferentes nacionalidades. A partir de então a fotografia se tornou recorrente nos cartazes. Vemos uma mudança radical no estilo gráfico, valorizando a simplicidade, aliás, uma marca dos japoneses.

1964 - Tóquio (Japão)

1964 - Tóquio (Japão)

A partir de 1968, com as Olimpíadas do México, a primeira na América Latina, os pôsteres foram marcados pela geometria e abstracionismo das formas, características do período. Os arcos olímpicos se destacaram e o minimalismo tornou os cartazes mais simples e diretos.

1968 - Cidade do México (México)

1968 - Cidade do México (México)

1972 - Munique (Alemanha Ocidental)

1972 - Munique (Alemanha Ocidental)

1976 - Montreal (Canadá)

1976 - Montreal (Canadá)

1980 - Moscou (União Soviética)

1980 - Moscou (União Soviética)

1984 - Los Angeles (EUA)

1984 - Los Angeles (EUA)

De longe, o pôster de Seul (1988) merece uma medalha de ouro, na minha avaliação pessoal. A imagem sintetiza elementos visuais que se tornaram símbolos dos anos 1980, visíveis na tipografia, na escolha das cores, no efeito neon e no retorno ao exagero, embora mantenha a simetria típica dos anos 1960.

1984 - Seul (Coreia do Sul)

1984 - Seul (Coreia do Sul)

1992 - Barcelona (Espanha)

1992 - Barcelona (Espanha)

1996 - Atlanta (EUA)

1996 - Atlanta (EUA)

No início do século XXI, a tendência parece estar nos ícones que misturam elementos culturais dos países sedes aos símbolos olímpicos. Em Sydney, na Austrália, o bumerangue (instrumento de caça típico do país) compõe a figura do atleta. Já em Atenas (2004), a tradicional folha de louros é novamente lembrada.

2000 - Sydney (Austrália)

2000 - Sydney (Austrália)

2004 - Atenas (Grécia)

2004 - Atenas (Grécia)

Já em Pequim (2008), a figura do corredor é formada ao estilo do ideograma chinês, a escrita milenar do país asiático.

2008 - Pequim (China)

2008 - Pequim (China)

2012 - Londres (Reino Unido)

2012 - Londres (Reino Unido)

Em 2016, a receptividade do povo brasileiro é traduzida em um abraço cheio de cores, representando atletas de diferentes modalidades esportivas. A imagem também simboliza a alegria e a diversidade cultural e natural do país e ainda é possível enxergar as formas do Pão de Açúcar, uma das paisagens mais conhecidas do Rio de Janeiro.

2016 - Rio de Janeiro (Brasil)

2016 - Rio de Janeiro (Brasil)

Mas por aqui uma série de cartazes foi encomendada, ao todo foram lançados mais 13 pôsteres oficiais, assinados por diferentes artistas, todos com características bem distintas, provando mais uma vez que a diversidade e a alegria das cores vibrantes compõem o legado visual que o Brasil deixa agora às Olimpíadas. 

E as próximas Olimpíadas, hein? O que será que os japoneses estão preparando? Tivemos uma mostra na cerimônia de encerramento da edição de 2016, no Rio. O Japão fez jus à sua fama de potência tecnológica, exaltando ainda sua cultura de animes e jogos eletrônicos, populares em todo o mundo. Ainda não temos um cartaz oficial, mas o logo do evento já foi divulgado, adotando um estilo tradicional japonês do período histórico conhecido como Edo (1603 - 1867). O estilo ichimatsu moyo incorpora a mensagem de união na diversidade.

2020 - Tóquio, no Japão, será novamente sede das Olimpíadas. Embora ainda não haja um cartaz oficial, os logos das Olimpíadas e das Paraolimpíadas já foram divulgados

2020 - Tóquio, no Japão, será novamente sede das Olimpíadas. Embora ainda não haja um cartaz oficial, os logos das Olimpíadas e das Paraolimpíadas já foram divulgados


Bônus

Um fato curioso é que o Japão iria sediar os jogos olímpicos de 1940. Entretanto, devido à guerra Sino-Japonesa (1937 - 1945), os jogos em Tóquio foram transferidos para Helsinque, na Finlândia. Mas a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945) impossibilitou a realização do evento, que foi definitivamente cancelado naquele ano. De qualquer forma, Tóquio chegou a produzir um pôster oficial para as Olimpíadas de 1940, bastante diferente, diga-se de passagem. Helsinque também preparou seu cartaz, que foi reaproveitado em 1952, quando finalmente a cidade sediou os jogos.

1940 - Tóquio (Olimpíadas canceladas devido à Guerra Sino-Japonesa)

1940 - Tóquio (Olimpíadas canceladas devido à Guerra Sino-Japonesa)

1940 - Hensinque também não conseguiu sediar os jogos em 1940, mas a arte do cartaz foi reaproveitada em 1952

1940 - Hensinque também não conseguiu sediar os jogos em 1940, mas a arte do cartaz foi reaproveitada em 1952

Geometria coreografada: vocês pre-ci-sam conhecer o Ballet Triádico da Bauhaus

O Ballet Triádico da Bauhaus é uma ode aos princípios fundamentais da visualidade: a forma, a cor e o espaço. Um afago aos olhos!

Desenvolvido por Oskar Schlemmer e com música de Paul Hindemith, é considerado o primeiro balé abstrato da história da dança. Estreou em 1922, em Stuttgart (Alemanha) e merece a nossa atenção por ser um exemplo elevadíssimo do espírito vanguardista que tomou conta das artes no início do século XX, capaz de nos surpreender e emocionar até hoje.

Alguns figurinos do Ballet Triádico

Alguns figurinos do Ballet Triádico

No balé de Schlemmer, o número 3 é a base de tudo. São três bailarinos, em três atos, cada ato com sua respectiva cor e duração total de 30 minutos. 10 minutos para cada ato. E essa precisão matemática também se revela nos movimentos geométricos e nos figurinos simétricos dos bailarinos. Geometria coreografada.

Vagando pela internet, encontrei uma citação que seria do próprio Schlemmer, explicando em seu diário, do dia 5 de julho de 1926, o conceito de seu Ballet Triádico. Segue:

Por que o Ballet Triádico? Porque o três é um número eminentemente dominante, no qual o eu unitário e o seu oposto dualista são superados, começando então o coletivo. Depois dele vem o cinco, depois o sete, e assim por diante. O ballet deve ser entendido como uma dança da tríade, a troca do um, com o dois, com o três. Uma bailarina e dois bailarinos: doze danças e dezoito trajes. Mais além, a tríade é: forma, cor, espaço; as três dimensões do espaço: altura, profundidade e largura. As formas fundamentais: esfera, cubo e pirâmide; as cores fundamentais: vermelho, azul e amarelo. A tríade de dança, traje e música.

E como a internet é maravilhosa, é claro que tem um vídeo com o Ballet Triádico inteirinho  - e colorido. Sério, gente, dá logo esse play. Vocês não vão se arrepender:

Oskar Schlemmer e a Bauhaus:

Nascido em 1888, em Stuttgart (Alemanha), Oskar Schlemmer foi um dos primeiros professores da Bauhaus, a primeira escola de design do mundo. Entre 1921 e 1929, Schlemmer foi Mestre da Forma na Oficina de Teatro da Bauhaus, depois de ter trabalhado também na Oficina de Escultura. Foi pintor, escultor, designer e coreógrafo. O Ballet Triádico é um de seus principais trabalhos, assim como a tela ‘Bauhaustreppe’, de 1932.

O balé de Schlemmer ajudou a espalhar as ideias da Bauhaus, que tinha como principal campo de estudos a arquitetura, influenciando principalmente o design e a arquitetura modernista da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. Foi fundada por Walter Gropius em 1919 e fechada em 1933 pelo governo nazista. Entretanto, sua filosofia migrou para outros países e posteriormente voltou a funcionar na Alemanha. Atualmente, continua sendo uma das principais universidades daquele país.

Retrato de Oskar Schlemmer

Retrato de Oskar Schlemmer

A tela ‘Bauhaustreppe’ (1932), de Oskar Schlemmer

A tela ‘Bauhaustreppe’ (1932), de Oskar Schlemmer

Fachada do prédio original da Bauhaus

Fachada do prédio original da Bauhaus