Pigmum

arte e outros riscos

Retrospectiva: 10 exposições de arte que marcaram o ano de 2017 no Nordeste

2017 já está nos seus suspiros finais, mas ainda vale a pena dar um último giro cultural pelo Nordeste e destacar algumas exposições de arte que marcaram o ano na região!

  Imagens de algumas das exposições que marcaram o ano de 2017 no Nordeste

Imagens de algumas das exposições que marcaram o ano de 2017 no Nordeste

Mas antes, algumas considerações:

Apesar de ter sido um ano difícil às artes visuais - que do segundo semestre pra cá se deparou com o falso-moralismo e a hipocrisia de alguns conservadores com agenda política a cumprir, não faltou nudez, temas referentes à sexualidade ou questionamentos políticos nas exposições por aqui. Embora a artista Simone Barreto tenha sido 'convidada' a retirar algumas de suas obras de uma exposição no Espaço Cultural Unifor, em Fortaleza, não tivemos acesso a outros episódios significativos de censura em museus, centros culturais e galerias de arte do Nordeste. Por acaso não há conservadores por aqui? Ou isso apenas reflete aqueles dados de 2009 do IBGE, que mostram que 96% dos brasileiros não frequentam museus e 93% nunca foram a uma exposição de arte? Será que no Nordeste essa porcentagem é ainda maior?

  Em protesto contra à censura a exposições de arte e apresentações cênicas em 2017, 115 pessoas ficaram nuas na Praça do Museu da República, em Brasília, para uma série fotográfica assinada pelo fotógrafo Kazuo Okubo. Censura nunca mais!

Em protesto contra à censura a exposições de arte e apresentações cênicas em 2017, 115 pessoas ficaram nuas na Praça do Museu da República, em Brasília, para uma série fotográfica assinada pelo fotógrafo Kazuo Okubo. Censura nunca mais!

Ainda somos uma região sem o hábito de frequentar equipamentos culturais e desconfio que isso tem relação direta com nossa carência em educação, mais até do que com a condição financeira ou classe social do nosso povo. Arrisco dizer, inclusive, que a classe média e a própria elite econômica não são grandes frequentadores de museus (locais, é claro) e exposições de arte (pelo menos quando não oferecem algum status social). E quando falo sobre nossa carência em educação, não estou falando de educação como mercadoria, mas sim de educação para a formação humana do indivíduo e da própria sociedade.

  O hábito de frequentar museus e outros espaços culturais deve fazer parte da formação humana de nossas crianças

O hábito de frequentar museus e outros espaços culturais deve fazer parte da formação humana de nossas crianças

  Uma criança visita a exposição  'Meu Caminho' , de Raimunda Fortes, na Sala Sesc de Exposições, em Sao Luís-MA

Uma criança visita a exposição 'Meu Caminho', de Raimunda Fortes, na Sala Sesc de Exposições, em Sao Luís-MA

Nossa cultura faz parte desse processo de formação. A arte transforma. Ela tem o poder de nos tirar do lugar comum e de oferecer um ponto de vista diferente (e muitas vezes crítico) daquilo que é aparentemente banal em nosso cotidiano. A arte é um risco ao status quo. É por isso que os conservadores se sentem ameaçados por ela e é por isso também que os investimentos em educação e cultura não são prioridade às nossas oligarquias políticas. E a previsão é de que os cortes sejam ainda maiores em 2018.

Mas apesar de todas essas dificuldades, as artes visuais continuaram resistindo e florescendo no Nordeste e, ao longo do ano, recebemos grandes exposições individuais de artistas consolidados, como Tomie Ohtake, Leonilson e Chico Albuquerque, além do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE) - pela primeira vez no Nordeste. Tivemos ainda exposições coletivas comemorativas, reunindo os principais nomes da produção artística local de alguns estados. Sem falar na itinerância de algumas exposições pelas capitais e também pelo interior da região, o que ainda é pouco comum e merece ser incentivado para promover a integração e o intercâmbio cultural entre os estados do Nordeste. Afinal, se estamos geograficamente tão próximos, por que ainda somos tão distantes?


Tomie Ohtake na Caixa Cultural

  A artista Tomie Ohtake viveu 101 anos e 60 deles foram dedicados à arte

A artista Tomie Ohtake viveu 101 anos e 60 deles foram dedicados à arte

  A obra da artista sempre seguiu o caminho do abstracionismo

A obra da artista sempre seguiu o caminho do abstracionismo

Tomie Ohtake nasceu no Japão, mas viveu a maior parte de sua vida no Brasil e é reconhecida como uma das principais artistas brasileiras do século XX. Mesmo começando sua carreira aos 40 anos, ela ainda produziu por mais 60 anos! Em 2017, a mostra retrospectiva ‘Cor e Corpo’, que homenageia a artista morta em 2015, permaneceu bastante tempo no Nordeste, circulando pelas unidades da Caixa Cultural de Salvador, Recife e Fortaleza. O público dessas três capitais teve a oportunidade de ver de perto a sutileza das cores, das formas e das curvas que marcam o abstracionismo presente nas gravuras, pinturas e esculturas da artista.


Lula Cardoso Ayres: Arte, Região e Tempo

  Obra de Lula Cardoso Ayres exposta na retrospectiva do artista

Obra de Lula Cardoso Ayres exposta na retrospectiva do artista

A Caixa Cultural do Recife ainda celebrou a trajetória de Lula Cardoso Ayres, com uma grande mostra retrospectiva. Ao todo foram 208 obras que revelam a percurso do artista pernambucano por diferentes técnicas, como pintura a óleo, acrílica sobre cartão, aquarela, têmpera, entre outras. Lula Cardoso Ayres, que nos deixou em 1987, foi um grande nome do modernismo brasileiro e uma das figuras mais icônicas das artes visuais em Pernambuco.

  Telas de Lula Cardoso Ayres evidenciam seu traço modernista

Telas de Lula Cardoso Ayres evidenciam seu traço modernista

lula cardoso ayres

Leonilson: arquivo e memória vivos

  A obra de Leonilson é revisitada em exposição retrospectiva

A obra de Leonilson é revisitada em exposição retrospectiva

Já o artista Leonilson teve sua maior exposição retrospectiva, que resultou ainda na publicação de seu catálogo raisonné – com reproduções de todas as obras conhecidas do artista. A mostra ficou cerca de 3 meses em cartaz no Espaço Cultural Unifor, em Fortaleza, e reuniu mais de 120 obras, algumas delas inéditas. Leonilson nasceu no Ceará, mas se mudou para São Paulo ainda na infância. Ele se destacou na arte contemporânea brasileira entre as décadas de 1980 e 1990, mas em 1993 teve sua vida interrompida, aos 36 anos, vítima do vírus HIV. Justíssima homenagem do Ceará ao seu conterrâneo.

  O artista seguiu o caminho da arte contemporânea em sua breve, mas profícua trajetória

O artista seguiu o caminho da arte contemporânea em sua breve, mas profícua trajetória

leonilson

O fotógrafo Chico Albuquerque, 100 anos

  Fotos do ensaio  'Mucuripe' , responsável por projetar nacionalmente a costa cearense

Fotos do ensaio 'Mucuripe', responsável por projetar nacionalmente a costa cearense

chico albuquerque

Outro cearense homenageado por lá foi o fotógrafo Chico Albuquerque, um dos pioneiros na fotografia publicitária brasileira e responsável por projetar nacionalmente a costa marítima do Ceará. Em 2017 ele completaria 100 anos e por isso foi tema da edição deste ano da Maloca Dragão, o maior festival de artes do estado. A exposição ocupou o Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC-CE) com mais de 400 fotografias.

Chico Albuquerque também ficou conhecido por ter acompanhado o cineasta americano Orson Welles ('Cidadão Kane') durante as gravações de um documentário sobre quatro jangadeiros que, a bordo de uma jangada, navegaram até o Rio de Janeiro a fim de reivindicar melhores condições de trabalho ao então presidente Getúlio Vargas. Infelizmente, o filme permaneceu inacabado, mas virou história.

  O cineasta americano Orson Welles (sentado) durante passagem pelo Ceará, em 1942. Fotografia: Chico Albuquerque

O cineasta americano Orson Welles (sentado) durante passagem pelo Ceará, em 1942. Fotografia: Chico Albuquerque


FILE SÃO LUÍS 2017

  Pela primeira vez, o FILE, maior festival de Arte e Tecnologia da América Latina chegou a uma cidade nordestina

Pela primeira vez, o FILE, maior festival de Arte e Tecnologia da América Latina chegou a uma cidade nordestina

E pela primeira vez uma cidade nordestina recebeu o Festival Internacional de Arte Eletrônica (FILE), o maior festival de Arte e Tecnologia da América Latina! A mostra, que anualmente acontece em São Paulo e circula geralmente entre as capitais do Sul e Sudeste, veio com tudo inaugurar o Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM), o mais novo espaço expositivo de São Luís (que, claro, merece nossa atenção nessa retrospectiva de 2017).

Durante três meses, o público do Maranhão pode interagir com obras de realidade virtual, instalações interativas, games, animações, experiências sensoriais, tendo acesso a trabalhos de mais de 42 artistas de diversos países, como Brasil, Alemanha, Austrália, Canadá, França, Eslováquia, Estados Unidos, Grécia, México, Portugal e Sérvia. De fato, uma mostra que merece o registro!

  Obra de realidade virtual convida o interator a entrar na obra de Van Gogh por meio de um óculos de realidade 3D

Obra de realidade virtual convida o interator a entrar na obra de Van Gogh por meio de um óculos de realidade 3D

  Sede do Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM), inaugurado em 2017

Sede do Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM), inaugurado em 2017


Mostra Sesc Amazônia das Artes pelo Maranhão e Piauí

  A exposição  'Alistamento' , de Éder Oliveira, integrou a 10ª edição da Mostra Sesc Amazônia das Artes

A exposição 'Alistamento', de Éder Oliveira, integrou a 10ª edição da Mostra Sesc Amazônia das Artes

Em 2017, o Maranhão ainda recebeu a exposição ‘Alistamento’, assim como o Piauí! Os dois estados integraram a 10ª edição da Mostra Sesc Amazônia das Artes, que também percorreu toda a região Norte e o Mato Grosso, promovendo atividades culturais nos estados da chamada Amazônia Legal. Eu só não entendi o porquê do Piauí ser incluído nesse projeto, uma vez que o Amazônia não é um bioma que ocorre no estado. Mas enfim... que bom que itinerâncias culturais como essa estão ocorrendo também no Norte do país!

Quem assina a exposição ‘Alistamento’ é o artista paraense Éder Oliveira, que apresentou ao público seu olhar artístico sobre o alistamento militar, em um processo de experimentação estética que aproximou fotografia, retrato, pintura e intervenção. Para muitos jovens, o alistamento militar representa uma alternativa para mudar de vida, principalmente para aqueles vindos de cidades pequenas.

  Um olhar artístico sobre o alistamento militar

Um olhar artístico sobre o alistamento militar

eder oliveira

Alexandre Filho - Pinturas e Gravura

  A Usina Cultural Energisa, em João Pessoa-PB, abriu a Galeria de Arte Alexandre Filho, seu novo espaço expositivo

A Usina Cultural Energisa, em João Pessoa-PB, abriu a Galeria de Arte Alexandre Filho, seu novo espaço expositivo

Outro espaço expositivo inaugurado recentemente é a Galeria de Arte Alexandre Filho, dentro da Usina Cultural Energisa, em João Pessoa. E nada melhor do que uma exposição do próprio homenageado para abrir a galeria! O paraibano Alexandre Filho é um verdadeiro patrimônio vivo da arte popular brasileira, reconhecido internacionalmente como um dos principais artistas naïfs do país.

A exposição retrospectiva de seus 50 anos de carreira (!) contou com trabalhos que se destacam pela leveza do traçado arredondado, pelas cores cheias de luz, pelo lirismo da relação entre a figura humana e a natureza e pela memória coletiva do povo nordestino, tão presente em suas telas. Algumas das obras, inclusive, eram inéditas. Na ocasião dessa exposição, o Pigmum também homenageou o artista lançando a seção Artista do Mês. Mais que merecido!

  Alexandre Filho é referência em arte  naïf  no país

Alexandre Filho é referência em arte naïf no país


Graciliano Arte e os 200 anos de Alagoas

  Páginas do livro Graciliano Arte dedicadas ao artista contemporâneo Delson Uchôa

Páginas do livro Graciliano Arte dedicadas ao artista contemporâneo Delson Uchôa

  Capa do livro Graciliano Arte, publicado em 2017

Capa do livro Graciliano Arte, publicado em 2017

Em Alagoas, os 200 anos de emancipação política (o território alagoano pertencia a Pernambuco até 16 de setembro de 1817) foram comemorados também com exposições coletivas que apresentaram um panorama visual da produção artística contemporânea no estado. Apesar de ter ocorrido o 'III Salão de Arte Contemporânea de Alagoas' e da Pinacoteca Universitária da Ufal ter cumprido o seu papel muito bem com a mostra ‘Horizontes’, é preciso enfatizar a exposição ‘Graciliano Arte’, que marcou o lançamento de um livro homônimo com o recorte dessa produção contemporânea em diferentes linguagens, como a música, a literatura, o audiovisual, as artes cênicas e, claro, as artes visuais.

Embora a publicação tenha causado certo desconforto devido às escolhas editoriais e à ausência de alguns nomes emblemáticos entre os artistas locais, é válido destacar esse livro como uma conquista das artes em Alagoas. Que venham os próximos!

Na exposição, que foi montada no Galpão 422, o público pode conferir trabalhos de artistas em plena atividade, como Pedro Lucena, Myrna Maracajá, Heway Verçosa, Suel Cordeiro, Celso Brandão, Francisco Oiticica, Renata Voss e Ricardo Lêdo.


A itinerância de Guto Holanda

  Guto Holanda e suas obras

Guto Holanda e suas obras

E quem também expôs em Maceió foi o paulista Guto Holanda. Radicado em João Pessoa, o artista conseguiu circular com seus trabalhos em pelo menos três estados do Nordeste este ano! Primeiro ele dividiu o espaço da Galeria de Arte Archidy Picado, em João Pessoa, com o também artista Américo Filho (Meiacor); depois, a Pinacoteca da Ufal recebeu a sua exposição individual ‘Nunca Serei Cinza’; e em novembro, foi a vez da Galeria de Arte do IFRN Cidade Alta, em Natal, receber a mesma exposição.

Mas por que eu estou batendo tanto nesta tecla? Porque seria incrível que as exposições dos nossos artistas tivessem trânsito facilitado não apenas nas capitais da região, mas também pelo interior dos estados. Precisamos dar a oportunidade para que o Nordeste conheça e valorize os seus próprios artistas. Intercâmbio cultural é fundamental!

  Mostra  'Cor de Dentro'  ficou em cartaz na Galeria de Arte Archidy Picado, em João Pessoa-PB, no primeiro semestre de 2017

Mostra 'Cor de Dentro' ficou em cartaz na Galeria de Arte Archidy Picado, em João Pessoa-PB, no primeiro semestre de 2017


II Salão Dorian Gray de Artes Visuais em Mossoró-RN

  O cangaço foi o tema do II Salão Dorian Gray de Artes Visuais

O cangaço foi o tema do II Salão Dorian Gray de Artes Visuais

Falando em interiorização, não podemos deixar de fora o 'II Salão Dorian Gray de Artes Visuais', que levou para Mossoró-RN – em pleno período junino - mais de 300 obras, entre desenhos, pinturas, esculturas, gravuras, fotografias, imagens em movimento e performances. Cerca de 150 artistas participaram da mostra, que teve o cangaço como tema. O salão integrou as comemorações da cidade pelos 90 anos de resistência do povo mossoroense ao ataque do bando de Lampião. De fato, essa grande exposição no interior potiguar marcou o ano de 2017 para as artes visuais do Rio Grande do Norte.

E a notícia que rola por aí é de que Mossoró vai ganhar a sua própria Pinacoteca! Espero que esse projeto saia mesmo do papel, né governador?!

  A mostra levou mais de 300 obras para Mossoró-RN

A mostra levou mais de 300 obras para Mossoró-RN

II Salão Dorian Gray de Artes Visuais

É claro que muita coisa ficou de fora nessa retrospectiva 2017. Não foi nada fácil eleger apenas 10 exposições em meio a tanta coisa que rolou nos 9 estados que compõem o Nordeste. Mas acredito que consegui fazer um apanhado justo do que eu consegui acompanhar ao longo do ano por aqui. Espero que o Pigmum tenha ajudado vocês a se conectar com a cena artística visual do Nordeste. Espero ainda que, em 2018, o Pigmum possa acompanhar ainda mais de perto essa cena tão diversa e que se torne, de certa forma, um termômetro das artes visuais na região.

Agora pegue o champagne e vamos brindar!

Feliz ano novo!