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Documentário resgata a história do Halloween do Gringo’s, que já é considerado o maior Halloween de rua do Brasil

Olha que legal, gente. A jornalista Lara Paiva produziu um documentário sobre a Praça do Gringo’s e seu famoso Halloween, que há quase 10 anos reúne espontaneamente milhares de pessoas, sempre muito bem fantasiadas. Lá Pro Gringo’s faz parte de uma série de 4 documentários que fala sobre espaços urbanos de Natal (RN) e foi desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da jornalista.

A praça, na verdade, se chama Praça Ecológica de Ponta Negra, mas todo mundo chama de Praça do Gringo’s, porque em seu entorno está localizado o antigo Gringo’s Bar (hoje, Wesley’s Bar). E foi justamente lá que começou essa tradição de Halloween na praça.

Em 2008, Wilson Couto, que veio dos Estados Unidos só para abrir o Gringo’s Bar, organizou a primeira edição da festa, que era um evento privado, mas que ocorria na rua, em frente ao bar. Em poucos anos, a festa cresceu e acabou ganhando vida própria, tornando-se independente.

  Halloween do Gringo's 2015. Fotografia: Murilo Passos/Indica Natal

Halloween do Gringo's 2015. Fotografia: Murilo Passos/Indica Natal

Hoje, existe uma polêmica sobre quem organiza o evento. Em 2015, foram duas festas. O Wesley’s Bar (herdeiro direto do Gringo’s Bar) organizou o Halloween do Wesley’s no dia 31 de outubro, mas foi na noite seguinte que a praça foi novamente ocupada por milhares de pessoas, para curtir o que já está sendo considerado o maior Halloween de rua do Brasil.

  Fotos extraídas do site Apartamento 702

Fotos extraídas do site Apartamento 702

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Convenhamos, Natal é uma cidade um pouco apática no quesito ‘aglomerações espontâneas em espaços públicos’. Conseguir reunir tanta gente assim na Praça do Gringo’s é louvável. É ótimo! O que mais me chama atenção, no entanto, é que essa espontaneidade se manifesta em torno de uma festa tradicional das culturas norte-americana e europeia, mas difundida mundo afora principalmente pelos Estados Unidos.

Influência norte-americana

Moro em Natal há quase 5 anos e sempre achei curiosa a relação que a cidade estabeleceu com os norte-americanos. Durante a Segunda Guerra Mundial, Natal chegou a ser considerada um dos 4 pontos mais estratégicos do mundo, devido ao seu posicionamento geográfico na esquina do continente sul-americano. Em 1943, após uma conferência que reuniu em Natal os presidentes Getúlio Vargas (Brasil) e Franklin Roosevelt (EUA), os Estados Unidos estabeleceram uma base aérea que ficou conhecida como ‘Trampolim da Vitória’ e que foi importante para a vitória dos aliados.

  Hidro-avião sobre o Rio Potengi, em Natal (RN), na década de 1940

Hidro-avião sobre o Rio Potengi, em Natal (RN), na década de 1940

A presença norte-americana em Natal alterou profundamente o cotidiano da cidade e ainda hoje é possível perceber essa influência. Natal foi praticamente recolonizada. Durante a segunda metade do século XX, por exemplo, a cidade teve um crescimento exponencial ao longo do que hoje é a sua principal via, a Av. Salgado Filho, ligando o Centro à antiga base área norte-americana (que posteriormente deu lugar ao antigo Aeroporto Internacional Augusto Severo).

  Soldados se divertem na praia de Ponta Negra, na década de 1940. Fotografi  a: Ivan Dmitri - Michael Ochs Archives - Getty Image

Soldados se divertem na praia de Ponta Negra, na década de 1940. Fotografia: Ivan Dmitri - Michael Ochs Archives - Getty Image

Ruas já existentes foram rebatizadas (Por que você acha que a Av. Interventor Mário Câmara também é chamada de Avenida 6?) e, recentemente, descobri que a gíria ‘galado’, muito comum por aqui, tem sua origem nas roupas de gala que os soldados americanos usavam nas festas da cidade. Sem falar que ninguém em Natal é um ‘cara’ ou uma ‘mina’, mas sim um ‘boy’ ou até mesmo umA ‘boy’ ou ‘boyzinha’. Há quem diga ainda que os natalenses foram os primeiros brasileiros a tomar Coca-Cola e a mascar chicletes.

Sendo assim, não é de se espantar que o maior Halloween de rua do Brasil aconteça espontaneamente em Natal, numa praça que é reconhecida pelo nome de Gringo’s, graças a um boy que veio dos Estados Unidos exclusivamente para abrir um bar de rock por aqui, como vocês poderão ver no documentário. Curioso, né?