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arte e outros riscos

Entrevista | A curadora Tereza de Arruda comenta a exposição 'Contraponto', em cartaz em Brasília

  A curadora da exposição  'Contraponto' , Tereza de Arruda

A curadora da exposição 'Contraponto', Tereza de Arruda

Desde novembro do ano passado, o Museu Nacional da República, em Brasília, recebe uma grande exposição com nomes de destaque na arte contemporânea brasileira. A mostra 'Contraponto' reúne obras que pertencem ao acervo particular do colecionador Sérgio Carvalho e traz mais de 30 artistas, de três gerações diferentes, entre eles nomes como Antônio Obá, Berna Reale, Delson Uchôa, Elder Rocha, Fábio Magalhães, Flávio Cerqueira, Gil Vicente, Grupo EmpreZa, Hildebrando de Castro, Nelson Leirner e Renato Valle.

O sucesso de público foi tão grande que a mostra foi prorrogada até o próximo dia 25 de março, completando aí um período de visitação de pouco mais de 4 meses! Mas não era pra menos, né? Até pela sua dimensão, a mostra conseguiu apresentar ao público um recorte importante da atual produção artística brasileira.

E para entender melhor as escolhas curatoriais que nortearam a montagem da 'Contraponto', o Pigmum conversou com a curadora da exposição, a historiadora de arte Tereza de Arruda, que vive e trabalha entre São Paulo e Berlim desde 1989 e também já realizou curadorias em outros países, como Cuba e China. Na entrevista, Tereza comenta o desafio de adequar o projeto expográfico à monumentalidade do prédio do Museu Nacional, assinado por Oscar Niemeyer;  destaca ainda a relevância do Prêmio PIPA e de outros prêmios de divulgação e fomento aos novos artistas brasileiros; e fala um pouco sobre sua experiência profissional no campo da curadoria!

Entrevista imperdível, assim como a exposição! Mas corra! A 'Contraponto' já está nos últimos dias! Se você estiver em Brasília essa semana, não deixe de visitar o Museu Nacional da República!


Pigmum: O acervo da coleção Sérgio Carvalho conta com mais de 1.900 obras, mas apenas um recorte está em exposição na mostra 'Contraponto'. Como se deu a seleção desses trabalhos? Quais foram os critérios estabelecidos para compor a mostra?

Tereza: A mostra prioriza a diversidade e introspectividade da Coleção Sérgio Carvalho. Os artistas cujas obras estão presentes nesta exposição pertencem a três gerações distintas e são provenientes de várias cidades brasileiras. Desta forma, temos um panorama da atual produção contemporânea brasileira, rica e diversificada. Desde o início da coleção, houve a preocupação na aquisição de um conjunto significativo de obras de um mesmo artista, a conduzir o espectador à transformação na produção de cada artífice. Isto é uma prova do diálogo, cumplicidade e relacionamento progressivo e consequente com os criadores em seu percurso. Em face dessa particularidade e à vista da conhecida dificuldade das instituições nacionais em atender à demanda da produção das artes plásticas - certo que raramente um artista, de carreira consolidada ou em consolidação, tem a oportunidade de apresentar uma mostra individual em um museu (muitas vezes, a tão sonhada individual acontece antes em instituições internacionais, o que acaba por abrir portas no Brasil) -, a curadoria optou por trazer ao público uma coletiva de individuais (se não propriamente uma individual, um expressivo número de obras, evidenciando a preocupação com a formação de um acervo expressivo de cada artista). Assim, a mostra é composta de diversos núcleos individuais, proporcionando uma visão mais ampla da produção artística de cada um dos participantes. Em face dessa deliberada opção, o diálogo entre os artistas é secundário.

  Exposição  'Contraponto'  no Museu Nacional da República, em Brasília

Exposição 'Contraponto' no Museu Nacional da República, em Brasília

Pigmum: A mostra reúne mais de 30 artistas brasileiros e realça a diversidade formal, poética e temática do acervo de Sérgio Carvalho. Você acredita que a diversidade desse acervo representa, de certa forma, a diversidade e os contrastes ou contrapontos que podemos observar na arte contemporânea brasileira? Por quê?

Tereza: O resultado de minha pesquisa no contexto do acervo de Sérgio Carvalho apresentado nesta mostra evidencia diversos contrapontos que se complementam, enfatizando a pluralidade de técnicas e de linguagens, além da democracia estética na arte contemporânea brasileira: na história da arte contemporânea, nunca houve barreiras tão flexíveis, como na atualidade, propiciando atuações interdisciplinares, compondo-se, a mostra, de pinturas, fotografias, esculturas, vídeos, instalações, desenhos e performances. Podemos ainda adicionar uma conotação à mostra, acentuando, além da democracia estética, a democracia de expressão, essencial nas sociedades evoluídas, independente de ideologias, credo e partidos políticos. Mundialmente, se presencia um processo de retrocesso em vários seguimentos, e aqui o relevante é o cultural, imposto por sistemas de extrema direita. Justamente aí a arte é contraponto da repressão. Infelizmente, arte e sociedade têm hoje uma relação ambígua ao invés de efetiva, processo este que esperamos ainda reverter através de exposições como a 'Contraponto'.

  Pintura sobre tela de James Kudo, um dos artistas que integram a exposição

Pintura sobre tela de James Kudo, um dos artistas que integram a exposição

Pigmum: A partir da sua experiência como curadora, se você tivesse que traçar um perfil da arte contemporânea brasileira, que pontos ou contrapontos você destacaria como latentes na atual produção artística nacional?

Tereza: A atual produção da arte nacional não é um fenômeno isolado porém o resultado de um processo e atuação de artistas de diversas gerações. Justamente por isto expomos nesta mostra obras de artistas de três gerações para que fique visível esta interlocução entre as gerações distintas. A arte contemporânea brasileira atual possui um vasto legado de expressão.  Os artistas relatam em suas obras ora questões pessoais de seu microcosmo, temáticas que os norteiam em seu cotidiano, ora questões globais. O censo crítico e irônico se faz presente com muita sutileza a se destacar como uma das vertentes da produção atual.

 'Eu vi o mundo e ele começa dentro de mim'  (2015), escultura de Flávio Cerqueira. Fotografia: Paula Patrini

'Eu vi o mundo e ele começa dentro de mim' (2015), escultura de Flávio Cerqueira. Fotografia: Paula Patrini

  Outra escultura em bronze de Flávio Cerqueira

Outra escultura em bronze de Flávio Cerqueira

Pigmum: Entendendo a história da arte como uma narrativa que se consolida principalmente a partir da articulação de diversos fatores e agentes, como sucesso comercial, reconhecimento acadêmico, premiações, popularidade, inovação do ponto de vista técnico ou poético... Qual é a importância de acervos como o de Sérgio Carvalho nesse processo?

Tereza: O interesse de Sérgio Carvalho não é a obra de arte necessariamente como produto final. Não é seu valor de mercado que o atrai. Não é o rótulo que a obra e o artista adquiriram da crítica especializada, tampouco seu ranking na apreciação por curadores de destaque que induzem sua apreciação. O acervo é configurado a partir de um processo introspectivo desenvolvido com cada um dos artistas - na realidade, com sua quase totalidade. As visitas aos ateliers e exposições, reforçadas por conversas intensas e informais, desencadeiam uma relação única, formada por respeito, compreensão, engajamento e cumplicidade. Eis um exemplo autêntico de mecenato, o qual caiu em desuso a partir da introdução do capitalismo, desfazendo uma rede efetiva de inserção da produção artística no sistema social então vigente. A aquisição da obra de arte não significa o final de um processo. Este é o mero início de um intenso diálogo, em ordem progressiva, de Sérgio com os artistas, suas obras entre si e, por fim, dos artistas entre si. Aliás, o seu aprofundamento no universo artístico ocorre por conexões desencadeadas pelos próprios artistas. Não há uma hierarquia desnecessária neste processo que impeça o acesso ao conteúdo - este é entregue, compartilhado e guiado pelos participantes deste processo, artistas e colecionador, que muitas vezes desempenha o papel de mecenas, ao estimular, incentivar e patrocinar a produção artística e sua visibilidade.

  A monumentalidade do Museu Nacional da República, com projeto assinado por Oscar Niemeyer

A monumentalidade do Museu Nacional da República, com projeto assinado por Oscar Niemeyer

Pigmum: Me fale um pouco sobre a concepção expográfica da exposição. Como fazer com que obras tão diversas dialoguem entre si e dialoguem também com o espaço monumental do Museu Nacional da República?

Tereza: O projeto expográfico foi um grande desafio, uma vez que lidamos com uma obra arquitetônica museológica típica de Oscar Niemeyer – o museu não possui paredes planas e também não possui cantos. Pensamos em criar nichos dentro desta monumentalidade arquitetônica que fossem ao mesmo tempo efetivos tanto para a apresentação individual dos artistas quanto para o diálogo entre o conjunto. Não há distribuição das obras necessariamente por um agrupamento temático ou estético. Elaboramos a distribuição espacial para dar o máximo de vazão e visibilidade possível para o conteúdo exposto.

Pigmum: Entre os artistas da exposição, dezessete deles já foram indicados ao Prêmio PIPA, que ao longo desta década vem se destacando como um dos principais espaços para a apresentação de novos artistas no Brasil. Na sua opinião, o Prêmio PIPA pode ser considerado um termômetro da produção artística contemporânea? Que outros prêmios, museus, galerias ou veículos de comunicação você considera que também cumprem essa função de apresentar a nova cara da arte brasileira?

Tereza: O Prêmio PIPA é sem dúvidas um dos grandes meios de divulgação e formento da produção atual brasileira. Outros prêmios relevantes são o Marcantonio Vilaça, assim como premiações que acontecem no contexto das feiras de arte nacional. A mostra Panorama da Arte Brasileira organizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo também tem em seu estatuto esta prioridade. Estes prêmios e mostras aqui citados deveriam ser exemplares para a criação de mais plataformas por todo o Brasil para o incentivo e difusão da obra de jovens artistas, uma vez que esta produção é vasta de conteúdo e também descentralizada geograficamente. A oferta atual de subsídios e premiações é sem dúvidas muito escassa comparada com a demanda existente.

  Obras de Berna Reale, vencedora do Prêmio PIPA online 2012

Obras de Berna Reale, vencedora do Prêmio PIPA online 2012

Berna Reale Contraponto

Pigmum: Ao longo de sua trajetória como curadora de arte você já realizou trabalhos em parceria com instituições e museus nacionais e internacionais, inclusive você vive e trabalha entre São Paulo e Berlim desde 1989. Você percebe alguma diferença no trabalho de curadoria de arte no Brasil e na Alemanha? Quais são os principais desafios que você já enfrentou durante a sua carreira?

Tereza: Iniciei a curadoria internacional em um período em que esta atuação ainda era pioneira. Me formei inicialmente no Brasil em Administração de Empresas especializada em comércio exterior e na sequência fui para Berlim estudar História da Arte. Nesta época não existia esta formação no Brasil como um curso universitário autônomo. Meu interesse era realmente ter um entendimento maior da arte, sua relevância e potencial de difusão como um elo intercultural sem nunca pensar nos desafios que viriam. O percurso é longo, porém muito frutífero. Por coincidência eu já morava em Berlim no período da queda do muro e desmanche da cortina de ferro que supostamente dividia o mundo entre capitalista e comunista. Houve um grande efeito dominó com a queda de ditaduras do leste europeu, o que sem dúvidas desencadeou uma grande abertura sócio-política-econômica abrangente, inclusive como um dos primórdios para a abertura da China que a levou ao status de potência global. Toda esta evolução foi propícia para eu expandir meu território de atuação. Possuo três nacionalidade – brasileira, alemã e italiana – como toda boa espiã! Permaneço atenta a diversos contextos sem nunca ter deixado de manter uma relação estável profissional com o Brasil, onde realizo em média três projetos em instituições e museus por ano.

  Parede com obras de Flávia Junqueira, na exposição  'Contraponto' . Fotografia: Paula Patrini

Parede com obras de Flávia Junqueira, na exposição 'Contraponto'. Fotografia: Paula Patrini

Com grande satisfação aceitei o convite para a curadoria da mostra 'Contraponto'. O convite feito para uma inserção neste contexto é irrecusável, além de ser um grande desafio. Um filtro sobre o filtro original, que gera este acervo, deve ser feito com muita cautela, pois há de se explorar e ampliar toda a potencialidade do conteúdo armazenado. No trabalho de pesquisa desta coleção, me deparei com artistas e obras com os quais já me familiarizava. Nos mais de vinte anos atuando como historiadora de arte e curadora independente entre o Brasil e a Alemanha, tive a oportunidade de trabalhar com inúmeros artistas representados neste acervo, sendo que algumas das obras que expus em mostras anteriores fazem hoje parte deste legado. Almejei trabalhar com muitos artistas e a primeira oportunidade se concretiza na curadoria dessa mostra. Também me deparei com artistas e obras que, até então, desconhecia. Tudo é parte de um longo processo. Não há uma atuação de curadoria distinta entre Brasil e Alemanha. O profissionalismo há de ser primordial e vigente igualmente independente do local de atuação.

Pigmum: Tereza, muito obrigado pela entrevista e parabéns pela exposição! Foi muito prazeroso passar uma tarde quase inteira apreciando tantos trabalhos incríveis!

Tereza: Eu que agradeço pelo convite.


Exposição: Contraponto - Coleção Sério Carvalho
Artista: Coletiva
Até 25 de março, de terça-feira a domingo, das 9h às 18h
Local: Museu Nacional da República
Endereço: Setor Cultural Sul Lote 02, Esplanada dos Ministérios. Brasília - Distrito Federal. Telefone: (61) 3325-5220
E-mail: museunacional@gmail.com
Entrada gratuita.

SERVIÇO: