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ENTREVISTA | Ser artista na Paraíba: Guto Holanda e Américo Filho falam sobre suas exposições na Galeria Archidy Picado

Guto Holanda e Américo Filho são dois caras bastante criativos que trabalham com pintura, mas cada um seguindo seu próprio traço. Só que há exatamente 1 mês, os caminhos desses dois artistas se encontraram na Galeria Archidy Picado, em João Pessoa-PB, que recebe simultaneamente até o próximo dia 9 de maio as exposições ‘Cor de Dentro’ (Guto Holanda) e ‘Espera’ (Américo Filho, que também assina como Meiacor).

  Os artistas Guto Holanda e Américo Filho (Meiacor)

Os artistas Guto Holanda e Américo Filho (Meiacor)

Mas esse encontro inusitado só foi possível porque as duas exposições foram selecionadas no edital de ocupação da galeria para 2017, publicado no final do ano passado.

E já que estamos na reta final do período de visitação dessas exposições, o Pigmum conversou com os dois artistas pra deixar aqui vários motivos que farão você visitar a galeria o quanto antes! Porque tá valendo muito a pena ir, viu?

  As exposições de Guto Holanda e Meiacor ficam em cartaz até 9 de maio na Galeria Archidy Picado. Fotografias: Therles Silva

As exposições de Guto Holanda e Meiacor ficam em cartaz até 9 de maio na Galeria Archidy Picado. Fotografias: Therles Silva

espera archidy picado

Na entrevista, a gente falou sobre os processos criativos dos dois trabalhos, sobre a própria Galeria Archidy Picado, além das alegrias e desafios de ser artista na Paraíba. Mas chega de lero, lero e vamos ao que interessa:


  Obra de Guto Holanda que integra a exposição  'Cor de Dentro'

Obra de Guto Holanda que integra a exposição 'Cor de Dentro'

Pigmum: Pra começar, vamos falar das exposições. Em ‘Cor de Dentro’, a ideia era despir as pessoas de suas próprias peles e enxergar as cores delas por dentro. Guto, você chegou a ‘se pintar’ também? Com quais cores Guto Holanda seria representado então?

Guto: A ideia central da exposição está voltada para a questão daquilo que não vemos, no caso, as cores, os tons... Na minha concepção, como artista e ser humano, há cores nas sensações, nos momentos, e como somos bombardeados de sensações, de sentimentos, as cores permeiam na atmosfera. Não vemos, mas sentimos. Em relação à qual cor me representaria vindo de dentro... acredito que tal cor estaria relacionada a algum momento, mas quase sempre tons mais leves, pastéis e rosados.

Pigmum: E você, Américo, por que intitular a exposição de ‘Espera’? À espera de que, afinal?

Américo: A série ‘Espera’ aborda a temática do tempo pelo viés psicológico. É essa dimensão temporal que nos envolve e que passa mais rápido ou mais devagar dependendo do nosso ânimo.

Pigmum: Seu trabalho costuma seguir vertentes mais lúdicas, né? Dá pra perceber pelos traços e pelas cores, que se aproximam muito dos quadrinhos e do cartoon. E você também sempre utiliza suportes variados, como ilustrações em livros, objetos de decoração e grandes murais. Mas nessa exposição você trouxe algo minimalista, com imagens mais sérias e em pequenas dimensões. O que houve?

Américo: Eu costumo trabalhar em várias vertentes. Faço parte de alguns coletivos também, como o Humor Aquoso, que é uma página de humor na internet. Tem o DIA, que já caminha pro lado da ilustração e do design. E tem também o Acervo 03, de graffiti. Então essa é umas das características do meu trabalho e de como encaro as artes. Nesse sentido, minha produção é bem diversa. Pra mim, ideia e forma têm que dialogar. Então a ideia da série ‘Espera’, que eu venho alimentando já há algum tempo, caminhou para esta forma visual, o que nem sempre é uma escolha racionalizada.

  Para essa exposição, Américo usou madeira como suporte e pintou em pequenas dimensões, embora seja conhecido também por pintar grandes murais com  graffiti . Fotografia: Therles Silva

Para essa exposição, Américo usou madeira como suporte e pintou em pequenas dimensões, embora seja conhecido também por pintar grandes murais com graffiti. Fotografia: Therles Silva

Pigmum: Na exposição, as pinturas foram feitas sobre madeira. Foi a primeira vez que você usou esse suporte? O que muda do papel para a madeira, inclusive quanto às questões simbólicas envolvidas?

Américo: Eu já havia usado madeira como suporte, mas foi a primeira vez que usei madeira dessa forma, sem pintá-la completamente, deixando sua aparência natural. Quando iniciei a construção da ideia desta série não havia ainda pensado neste suporte. Comecei como sempre fazendo no papel, mas com um tempo achei que aquelas figuras envolvidas de vegetação precisavam de um suporte diferente do que eu costumo usar. Certo dia encontrei uns pedaços de madeira numa construção perto de casa, então peguei, guardei em casa, depois de algum tempo fiz um teste e gostei do resultado. As pinturas ganharam o corpo que mereciam.

  Obras de Meiacor. Fotografia: Therles Silva

Obras de Meiacor. Fotografia: Therles Silva

meiacor

Pigmum: Que bacana. Realmente o resultado ficou bem interessante. Intrigante, até. Já em ‘Cor de Dentro’, a técnica utilizada foi a pintura sobre Eucatex. Guto, que outros materiais e suportes você costuma usar no seu trabalho e quais são os temas que te motivam?

Guto Holanda: Eu tenho utilizado o Eucatex na maioria dos meus trabalhos, mas utilizo outros suportes também, como papel, tela, madeira... Basicamente tenho trabalhado com pintura, mas aos poucos tenho sentido a necessidade de criar em outros seguimentos, talvez escultura ou instalações... Os temas que costumo pintar estão ligados aos relacionamentos humanos, com o meio onde sobrevive ou vive, com objetos, com as sensações, trazendo uma estética bastante ligada ao meio urbano, à desconstrução de formas e trazendo cores diversas, quase que intuitivamente.

  Algumas obras da exposição  'Cor de Dentro' , de Guto Holanda. Fotografia:  Sandra Alves

Algumas obras da exposição 'Cor de Dentro', de Guto Holanda. Fotografia:  Sandra Alves

Pigmum: E vocês dois já se conheciam? Como está sendo a experiência de expor simultaneamente na galeria Archidy Picado?

Américo: A gente já se conhecia, sim, de outras exposições, inclusive. O Guto é um ‘caba bom’ e excelente pintor. Eu já tinha exposto na Archidy, mas como integrante do grupo DIA, não individualmente. E achei muito legal a ideia de exposições individuais simultâneas.

Guto: Pois é, apesar de serem duas exposições individuais, há um diálogo entre elas. É como sair de um filme e assistir outro, logo em seguida, falando de coisas diferentes, mas que se encontram. Essa foi minha primeira exposição na galeria e achei incrível expor ao lado de Meiacor. A gente se encontra em exposições, mas também em outros ambientes. Até na rua, na verdade, porque moramos bem próximos um do outro, no mesmo bairro.

Pigmum: E sobre a Galeria Archidy Picado, o que vocês mais gostam e o que precisa ser melhorado?

Américo: O espaço da galeria ficou muito bom depois da reforma. O que poderia mudar é o horário de funcionamento, que deveria funcionar também à noite.

Guto: Lá no Espaço Cultural José Lins do Rego acontecem muitos eventos no final da tarde e início da noite e justamente nesse horário a galeria está fechada [a galeria abre às 9h e fecha às 16h30]. Ao meu ver, seria um público interessante. No próprio prédio também não há sinalizações indicando onde fica a galeria. Acredito que tudo isso precisa ser melhorado, mas o espaço da galeria é muito interessante, sem falar na importância, em relação à credibilidade, que é expor numa das principais galerias da Paraíba, senão do Nordeste.

  Guto Holanda diante de suas obras. Fotografia: Sandra Alves

Guto Holanda diante de suas obras. Fotografia: Sandra Alves

Pigmum: Guto, pra você, como é ser artista na Paraíba? Você é de São Paulo, mas já mora aqui no Nordeste há alguns anos. Quais são as principais diferenças que você sente?

Guto: Eu moro na Paraíba há seis anos. Na verdade, ser artista aqui é resistir a um cenário sem tanta visibilidade, em relação a outros estados, como São Paulo ou Rio de Janeiro. Lá o movimento artístico tem mais incentivos e visibilidade. Porém, essa resistência acaba tornando o fazer artístico cada vez mais enraizado, mais verdadeiro em relação ao que se acredita no trabalho. Como se a voz fosse aumentando a cada exposição, a cada composição. Ao mesmo tempo que algumas questões são mais complicadas, como mercado, por exemplo, aqui na Paraíba encontrei um cenário mais aberto à experimentação, ao novo, no sentido de criação.

Pigmum: E você, Américo, como se deu o interesse pela arte e como é o dia a dia de um artista na Paraíba? Você inclusive é formado em Artes Visuais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), né?

Américo: Pelo que me lembro, eu sempre desenhei. Quando criança, era viciado em desenhos animados e costumava brincar de desenhar com meu irmão Gustavo. Resolvi fazer Artes porque era o curso que mais se aproximava do que eu gosto de fazer. Vivo uma vida normal. Tenho mulher e filho e um emprego fora das artes. Trabalho como ilustrador freelancer, também com graffiti, e no restante do tempo produzo meus trabalhos autorais, que são os que me dão mais satisfação.

  Obra de Américo Filho para a série  'Espera' . Fotografia: Therles Silva

Obra de Américo Filho para a série 'Espera'. Fotografia: Therles Silva

Pigmum: E quando foi então que Américo Filho se tornou o artista Meiacor? Por que esse nome?

Américo: O nome Meiacor, que é anagrama de Américo, é minha tag de graffiti. Comecei a grafitar há aproximadamente 6 anos depois de muitos convites de Cybele Dantas (Cyber), que é artista visual e grafiteira.

Pigmum: Beleza, gente! Muito obrigado por esse bate-papo.

Guto: A gente que agradece o contato. Em breve, terei outras exposições. Esse ano ainda aqui em João Pessoa. Espero que você possa ir!

Américo: Até a próxima, cara!


Exposições: Cor de Dentro e Espera
Artistas: Guto Holanda e Américo Filho (Meiacor)
Até 9 de maio, de segunda-feira à domingo, das 8h às 16h30
Local: Galeria Archidy Picado (Espaço Cultural José Lins do Rêgo)
Endereço: Rua Abdias Gomes de Almeida, 800, Tambauzinho. João Pessoa - Paraíba. Telefone: (83) 3211-6296
Entrada Gratuita

SERVIÇO: