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arte e outros riscos

ENTREVISTA | Um papo com a artista mineira Eugênia França, que chega hoje (4) em Maceió-AL para abrir a nova exposição da Pinacoteca da Ufal

Explorar e ressignificar objetos descartados, utilizando principalmente a pintura como linguagem. É isso que move a artista visual Eugênia França em sua investigação constante acerca das relações humanas na sociedade de consumo.

Natural de Patos de Minas-MG, a artista vem à Maceió-AL pela primeira vez para inaugurar sua primeira exposição individual: ‘Do Lado de Cá, Do Lado de Lá’, com trabalhos que procuram captar, por exemplo, a relação simbólica estabelecida entre meninas da periferia e suas bonecas.

  A artista visual Eugênia França vem à Maceió pela primeira vez

A artista visual Eugênia França vem à Maceió pela primeira vez

A abertura da exposição será nesta terça-feira (4), logo mais às 20h, na Pinacoteca Universitária da Ufal e o Pigmum bateu um papo com a artista para saber mais sobre seu processo criativo e sua crítica ao descontrole consumista, que consome não apenas objetos, mas também os sujeitos.

Pigmum: Comente um pouco sobre o formato dessa exposição. Quais foram as suas motivações?

  Acrílica sobre tela (2014), da série  '1, 2, 3 Salve Eu!'

Acrílica sobre tela (2014), da série '1, 2, 3 Salve Eu!'

Eugênia: O que busco levantar nesta exposição é a forma como estabelecemos nossas relações na sociedade capitalista, em que parece haver uma inversão dos papéis e do lugar ocupado pelos seres humanos e pelos objetos, onde tudo parece ser uma coisa só: objeto-gente, gente-objeto. São 27 pinturas que eu dividi em três séries: a primeira se chama ‘1, 2, 3 Salve Eu!’  e nela eu uso como referência bonecas de plástico que foram descartadas. A segunda série se chama ‘Ausência Incrustada’ e minhas referências são manequins de fibra de vidro descartados por uma loja de restauro. E tem também ‘Do lado de cá, do lado de lá’, que dá nome à exposição e tem como referência crianças, geralmente de periferia, com suas bonecas velhas.

Pigmum: Essa é sua primeira exposição individual, mas há quanto tempo você trabalha com artes visuais e o que te impulsionou a expor agora?

Eugênia: Meus primeiros trabalhos foram feitos em 2010 e desde então eu comecei a participar de várias exposições coletivas em Belo Horizonte. Em 2015 e 2016, eu fiquei muito envolvida com a produção de um trabalho de cerâmica e a publicação de um livro sobre minha produção plástica no campo da cerâmica e também sobre minhas reflexões acerca das relações na sociedade contemporânea. O título do livro é ‘Nós Outros e Eu Mesma: transformar o barro em cerâmica expressiva para refletir sobre as relações humanas na sociedade contemporânea’, publicado no ano passado. Só agora eu tive tempo de organizar a minha produção e selecionar os trabalhos para uma exposição individual.

Pigmum: Nessa exposição você escolheu lonas de caminhão como suporte. Como se deu essa escolha? Simbolicamente, o que essas lonas representam no seu trabalho?

Eugênia: Eu tenho preferência por materiais que foram descartados, pois eu faço uma tentativa de ressignificá-los. As lonas foram encontradas em um bota-fora por um amigo, que sabe do meu interesse por reutilização de materiais. Imediatamente eu experimentei, pois eu gosto dessa liberdade que o material alternativo me dá. O resultado estético foi ótimo e eu passei a utilizar a lona. E o que mais me interessa é que ela já sofreu intervenções de outras pessoas e essas intervenções estão registradas nela. Rasgos, remendos, marcas, sujeira... As lonas são impregnadas de histórias. Histórias inimagináveis, mas que passam a compor o trabalho. Da mesma forma que são inimagináveis as histórias que vivenciam essas crianças que eu retrato.

  Meninas e suas bonecas. Na exposição, o campo de interesse de Eugênia investiga como se dá essa relação simbólica

Meninas e suas bonecas. Na exposição, o campo de interesse de Eugênia investiga como se dá essa relação simbólica

  Acrílica sobre lona de caminhão. Obras sem título, de 2016

Acrílica sobre lona de caminhão. Obras sem título, de 2016

Pigmum: Quem são essas crianças retratadas e como você chegou até elas?

Eugênia: São em sua maioria crianças que vejo no meu dia a dia enquanto transito pela cidade. Eu me aproximo do responsável, falo do meu trabalho, tento estabelecer um diálogo que me permita compreender como a relação entre a criança e a boneca é estabelecida e qual a compreensão que o responsável tem da relação e do papel da boneca no universo feminino, sobretudo o infantil, que está em um momento de formação de sua identidade. Então peço permissão para fazer a foto. São também filhas de conhecidos, de colegas ou amigos.

Pigmum: No texto informativo da exposição, enviado à imprensa, você fala que ‘somos repetidores de um sistema’ e que ‘geralmente não questionamos, o que acaba refletindo nas escolhas, nos papéis desempenhados e no lugar que ocupamos no mundo’. Em sua perspectiva, como não ser repetidores de um sistema?

Eugênia: Penso que quando questionamos mais, quando buscamos compreender um pouco mais o mundo em que vivemos e nos entregamos mais ao processo do que ao resultado daquilo que fazemos, outros caminhos poderão ser construídos. Perdemos a compreensão dos vários processos de construção das coisas e escolhemos o caminho mais curto: tudo é produzido industrialmente e adquirimos produtos iguais feitos para pessoas iguais. Acho que precisamos nos permitir passar pelo processo das coisas para compreender melhor o mundo em que vivemos.

  Corpos descartáveis. Manequins de fibra de vidro também são reutilizados e ressignificados pela artista

Corpos descartáveis. Manequins de fibra de vidro também são reutilizados e ressignificados pela artista

Pigmum: Você é uma artista de Minas Gerais, vai expor agora pela primeira vez em Alagoas e depois a mostra segue para outros estados. Comente um pouco sobre a qualidade itinerante dessa mostra.

Eugênia: Eu mandei meu projeto de exposição para vários locais, através de editais, e tive a felicidade dele ser aprovado em seis editais. Dois no Nordeste e quatro no Sul. Essa é a primeira vez que venho a Maceió.

Pigmum: Então com certeza podemos contar com sua presença no lançamento?

Eugênia: Sim, estarei presente na abertura e também no dia seguinte [5], para uma conversa de artista com o público, também na Pinacoteca, às 17h.

Pigmum: Obrigado, Eugênia e espero que sua passagem aqui pelo Nordeste seja gratificante. Nos vemos logo mais então!

Eugênia: Eu que agradeço, um abraço!


SERVIÇO:

Abertura da exposição ‘Do Lado de Cá, Do Lado de Lá’
4 de abril (terça-feira), às 20h.
Local: Pinacoteca Universitária da Ufal
Endereço: Praça Visconde de Sinimbu, 206, 1º piso - Centro. Maceió - Alagoas (Espaço Cultural Salomão de Barros Lima). Telefone: (82) 3214-1545 | 3214-1428
E-mail: pinaufal@gmail.com
 

Visitação: de 5 de abril até 19 de maio, de segunda à sexta-feira, das 8h30 às 18h
Entrada franca.

Acesse o site da artista Eugênia França