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arte e outros riscos

Por que o clipe de Beyoncé e Jay-Z no Louvre é tão representativo do ponto de vista da arte

Vocês têm noção do poder desta imagem e de como ela questiona e até se impõe diante do sistema da arte e de sua história tradicionalmente eurocêntrica e elitista?

  O casal mais poderoso do showbiz e o retrato da Mona Lisa, um dos quadros mais reproduzidos do mundo da arte

O casal mais poderoso do showbiz e o retrato da Mona Lisa, um dos quadros mais reproduzidos do mundo da arte

Beyoncé e Jay-Z, o casal mais influente da indústria musical, se colocam à frente daquela que talvez seja a imagem mais icônica do mundo da arte – a Mona Lisa (1503-1506), de Leonardo da Vinci –, posicionando seus corpos negros em um espaço marcado pela branquitude e com raízes fincadas no colonialismo: o museu.

E não é qualquer museu! Para gravar seu novo clipe, ‘Apeshit’, o casal Carter simplesmente fechou o Louvre, o museu mais visitado do mundo! Beyoncé novamente pegou todo mundo de surpresa e lançou, durante um show na noite de sábado (16), não apenas um novo vídeo, mas um disco inteirinho! ‘Everything Is Love’ tem 9 faixas inéditas e é uma parceria com seu marido, o rapper Jay-Z. O álbum foi disponibilizado primeiro no Tidal, a plataforma de streaming comandada pelo rapper, mas agora já pode ser encontrado também no Spotify, Apple Music e ITunes. Já o clipe de ‘Apeshit’ todo mundo pode conferir no YouTube. Veja:

Com mais de 15 mil visitas por dia, o Louvre talvez seja o principal símbolo da cultura e da memória ocidental, com um acervo formado por mais de 35 mil peças, muitas delas oriundas de saques realizados contra nações africanas e asiáticas.

Inaugurado em 1793 no contexto da Revolução Francesa, o Museu do Louvre nasce sob o regime de Napoleão Bonaparte para exibir os tesouros confiscados dos povos conquistados. Nas entrelinhas do glamour e da imponência, o Louvre também narra, portanto, uma história de opressão que ecoa até hoje.

  Beyoncé e suas bailarinas dançam em frente ao quadro   'A Coroação de Napoleão'  (1807), de Jacques-Louis David. É interessante perceber como os movimentos desses corpos negros se colocam como referência à cultura negra, diante de uma pintura encomendada pelo próprio Napoleão

Beyoncé e suas bailarinas dançam em frente ao quadro 'A Coroação de Napoleão' (1807), de Jacques-Louis David. É interessante perceber como os movimentos desses corpos negros se colocam como referência à cultura negra, diante de uma pintura encomendada pelo próprio Napoleão

Não é por menos que, logo no início da música, a frase ‘I can't believe we made it’ (algo como, ‘eu não acredito que nós conseguimos’) ganha um sentido tão representativo. Afinal, a postura do casal frente a obras de arte como a Mona Lisa ou a Vênus de Milo acaba se transformando também em um ato político com um potencial midiático que poucos artistas inseridos no sistema da arte contemporânea teriam a oportunidade de alcançar. Eles entram no museu pela porta da frente e sabem o quanto isso é valioso e talvez sem precedentes.

  O casal Carter e a Vênus de Milo, a deusa do amor e da beleza. O traje de Beyoncé  revela as curvas de seu corpo e a aproxima da nudez da estátua grega, num diálogo (ou enfrentamento) direto com o padrão estético clássico de beleza

O casal Carter e a Vênus de Milo, a deusa do amor e da beleza. O traje de Beyoncé  revela as curvas de seu corpo e a aproxima da nudez da estátua grega, num diálogo (ou enfrentamento) direto com o padrão estético clássico de beleza

Quantas pessoas levaram o hip-hop aos salões solenes do Louvre? Quantas pessoas conseguem ficar a sós com a Mona Lisa? E com tamanha proximidade! Lado a lado com a pintura mais reverenciada de Leonardo da Vinci. Aliás, lado a lado, não! O casal dá as costas à Mona Lisa na maior parte do tempo. Pouca gente se atreveria e pouca gente teria a oportunidade de fazer isso. Eles fizeram. Fecharam o museu, firmaram um discurso de negritude (quase todo o elenco é negro) em um espaço historicamente e predominantemente branco e relegaram à Mona Lisa – aqui representando a narrativa linear que ainda prevalece na história da arte – um papel coadjuvante. Ela praticamente faz um feat. com a dupla nesse clipe!

  Quase todo o elenco do clipe é formado por pessoas com vários tons de pele negra

Quase todo o elenco do clipe é formado por pessoas com vários tons de pele negra

Beyoncé Louvre Jay-Z Apeshit

O ato de dar as costas à Mona Lisa se repete ainda em outra cena, em que um casal de bailarinos negros figura frente à pintura, que permanece ao fundo, desfocada, reduzida quase à um mero ornamento, enquanto a moça penteia o cabelo crespo do rapaz. E essa ação se torna protagonista na imagem, revelando a dimensão política que está impregnada no cabelo crespo e deixando para trás uma tradição inteira, que já não parece suficiente para contar a(s) história(s) do século XXI. A imagem é tão forte que inclusive originou a capa do disco:

  A capa do disco  'Everything Is Love'.  A Mona Lisa, desfocada ao fundo, atua como coadjuvante de um ato, ao mesmo tempo, sensível e extremamente político

A capa do disco 'Everything Is Love'. A Mona Lisa, desfocada ao fundo, atua como coadjuvante de um ato, ao mesmo tempo, sensível e extremamente político

Beyoncé e Jay-Z ainda parecem tensionar, de certa forma, sua própria condição como artistas nesse sistema da arte, tão cheio de contradições, tão difícil de definir e que aparentemente ainda prefere se manter distante de manifestações artísticas que nascem de fenômenos midiáticos de massa – por mais que Andy Warhol tenha colocado esse tema em debate na década de 1960. Com esse clipe, o casal Carter parece questionar também o que, de fato, significa ser artista na contemporaneidade. Qual é o espaço de artistas da indústria cultural na(s) história(s) que a historiografia da arte contará de agora em diante? Ainda faz sentido considerá-los como produtos descartáveis e de entretenimento, diante da inegável influência deles em nossa cultura?

  Os Carters posicionados no Louvre, entre os grandes nomes da história da arte. Há espaço para artistas como eles no museu?

Os Carters posicionados no Louvre, entre os grandes nomes da história da arte. Há espaço para artistas como eles no museu?

Parece um equívoco negligenciar a potencialidade da crítica feita pelos Carters e as centenas de milhões de visualizações que esse clipe pode atingir em poucos meses. Poucas obras de arte contemporânea - mesmo as mais questionadoras - têm a chance de obter tamanha visibilidade e impacto cultural.

No clipe, ambos sabem se impor e se fazer caber no Louvre, entre os grandes nomes da história da arte. Até arrisco dizer que pretendem se colocar em pé de igualdade com Leonardo da Vinci, no sentido de que também são capazes de formatar um discurso poético capaz de reverberar globalmente, semelhante à notoriedade que Da Vinci ou Michelangelo obtiveram ainda em vida na Europa do século XVI (claro, sem ignorar as devidas proporções e as diferentes competências).

  Em diversos momentos do clipe, Beyoncé faz referência à cultura negra, enchendo o Louvre de negritude. No vídeo, é possível ver também as raríssimas vezes em que personagens negros figuram nos quadros, geralmente em papeis de sujeição

Em diversos momentos do clipe, Beyoncé faz referência à cultura negra, enchendo o Louvre de negritude. No vídeo, é possível ver também as raríssimas vezes em que personagens negros figuram nos quadros, geralmente em papeis de sujeição

É poder demais que emana dessas imagens!!! E por mais que o casal pareça até um pouco prepotente no vídeo, precisamos admitir que eles têm condições suficientes de propor essa discussão no cerne da arte. Por isso, talvez ‘Apeshit’ seja um manifesto com a cara (e os meios) do século XXI.