Pigmum

arte e outros riscos

A mercearia que embrulhava sabão com arte e sonhos de criança

Na mercearia do meu pai, eu era freguês do papel de embrulho. Daquele bem rústico, reciclado, marrom. Ele ficava disponível no balcão, pronto para embalar barras de sabão. Era nesse papel que surgiam, à caneta Bic (geralmente na cor azul), minhas sereias, princesas e noivas. Sempre mulheres. Sempre longos e exuberantes vestidos, cabelos extravagantes, curvas sinuosas.

Quando não era no papel de embrulho, era no papel que embalava os maços de cigarro, geralmente das marcas Derby Azul ou Hollywood — os mais vendidos. A identidade visual dos cigarros cobria toda a superfície do papel, mas seu verso era vazio, branquinho, ideal para os meus desenhos. Muitas vezes esse papel também acabava embrulhando outros produtos da mercearia e minha arte infantil ia parar na casa dos clientes. Quase uma exposição itinerante pelo bairro.

  Já nem sei quantos anos tem esse desenho que eu fiz. =O

Já nem sei quantos anos tem esse desenho que eu fiz. =O

Muitas vezes esse papel também acabava embrulhando outros produtos da mercearia e minha arte infantil ia parar na casa dos clientes. Quase uma exposição itinerante pelo bairro.

Eu desenhava praticamente todos os dias, mais de uma vez por dia. Pegava papel e caneta, me debruçava sobre um dos freezers (de sorvete ou de cerveja) e ficava ali, dono do tempo, deixando a imaginação fluir, imerso numa realidade paralela que só se desfazia quando alguém precisava abrir o freezer.

Às vezes me questionavam o porquê de eu sempre desenhar os mesmos temas, mas era instantâneo: o primeiro traço sempre me levava à figura feminina. O que, aliás, acontece até hoje. Embora eu fosse uma criança misteriosamente atenta às minúcias das formas, das cores, dos padrões e das texturas das coisas, eu nutria certo fascínio pelo formato curvilíneo que o corpo feminino consegue assumir. Talvez Freud explique. Se tiver algum psicanalista de passagem pelo blog, por favor, fique à vontade.

E vocês, têm um tema recorrente na hora de desenhar? Conte-me mais sobre as suas obsessões.

  Umbigo ou o numeral 6? Detalhe de um desenho que fiz em 2001.

Umbigo ou o numeral 6? Detalhe de um desenho que fiz em 2001.

*Essa é a memória mais antiga que eu tenho sobre o meu envolvimento com a arte (sim, a mercearia foi praticamente o meu primeiro ateliê).